Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

O Espírito da Festa

Este será o primeiro ano em que assistirei à Festa dos Tabuleiros, em honra do Divino Espírito Santo. Acontece no início do Verão, de 4 em 4 anos, em Tomar, a cidade sede do concelho onde agora vivo e pertenço (ou tento pertencer).

Flores de papel, pães e pãezinhos, caniços e rendas brancas. As moças aqui das freguesias rurais andam afogueadas, a acabar de montar os tabuleiros; na cidade caminham pelas ruas em fato-de-treino, com as suas torres de papoilas, malmequeres e pães à cabeça, ensaiando o equilíbrio, pela fresca. Desde há alguns meses que, quando vamos à casa de banho dos cafés da cidade ou ao bar das associações recreativas, sobre uma mesa encostada a um canto, encontramos invariavelmente folhas de papel crepe, espigas de trigo, alicates, tesouras e arames. E o pão (que é verdadeiro, mas ninguém comerá; só, talvez, o bicho-da-farinha) larga o seu cheirinho quente quando é espetado pelas varas de cana...
Os vizinhos são obrigados a entender-se porque têm uma rua para enfeitar…
Mensagens recentes

O meu amigo monstro

Era uma vez um menino que nasceu gente e morreu gente. Mas, pelo meio do caminho, aconteceu-lhe um pequeno desvio. Bem, não sei se foi pequeno, mas que foi desvio, tenho a certeza, embora desconheça a razão porque estes desvios ou bifurcações ou acidentes – é como lhes quiserem chamar – ocorrem.
Acredito que um caminho, para ser digno desse nome, tenha de conter encruzilhadas, pedras, buracos, e até ogres e outras criaturas matreiras à espreita atrás de uma velha árvore; caso contrário não seria um caminho que se faz andando com os nossos próprios pés, mas uma via rápida para veículos motorizados ou, pior ainda, uma auto-estrada, daquelas perfeitamente sinalizadas e cronometradas, arrogantes e fastidiosas, que nos levam sempre em linha recta até ao destino programado. 
Calculo que a ti, natural do planeta azul, que caminhas pela vida há mais de 20 anos, já te tenha acontecido algo semelhante ao que te venho contar – tropeção, despiste ou emboscada, não importa o nome que lhe tenhas dad…

A maçã e o bicho

Era uma vez uma maçã. Larga de ancas e verde, daquelas de qualidade, das reinetas. E, como boa reineta que era, esta maçã tinha um píncaro muito bonito e trabalhado. Estilizado e perfeitamente centrado, fazia lembrar uma coroa, como se, afinal, em vez de maçã, ela fosse uma romã, ou a orgulhosa neta de um rei – «Rei-Neta!»
Para além de todas estas qualidades, esta maçã era biológica, alimentando-se desde pequena, quero dizer, desde semente, apenas de nutrientes orgânicos, sem corantes nem conservantes; sequer fertilizantes – bem, só dos naturais: excrementos de animais herbívoros, restos de vegetais, cadáveres de ervas e húmus, daquele bem escuro, aveludado e perfumado. Como se vê, uma dieta de luxo, digna de reis, chanceleres e ministros. Ou das suas respectivas netas.
Até que, certa tarde, estava a Reineta repimpada em cima de um tronco – de macieira, creio – quando foi arrebanhada por uma mão enorme, nodosa, repleta de calos e rematada por longas unhas, duras e negras. Era a mão de …

Maria, como eu

«E como se chama ela? Tem nome?...», perguntei eu, distraidamente.
«Eu, chamo-lhe Maria…», respondeu-me tímida, quase envergonhada, a Mariana, que já é uma senhora madura, a caminho dos 80, e vive com o marido no número 1 da minha aldeia, lá ao cimo da comprida rua principal, mesmo antes da paragem da camioneta; na casa onde, até ao ano passado, havia um letreiro a informar em letras garrafais «Vende-se vinho». Agora já não. Mas, de quando em vez, ainda nos oferecem uma garrafinha de aguardente, da deles. «Desculpe lá…», rematou ela a frase, sinceramente convencida de que havia cometido uma gaffe, senão um verdadeiro abuso, ao lembrar-se de dar a uma gata, vadia ainda por cima, nome de mulher, que não só é o de Nossa Senhora, como também o meu, a sua nova vizinha. Expliquei-lhe que não me ofendia nada, até gostava. Já não lhe disse, mas pensei cá com as minhas entranhas, ou por outra, senti de forma privada um certo orgulho, confesso. Ser assemelhada a uma gata daquelas, bonita, indepen…

O coelhinho Atão e a Coelhinha Porquê

Era uma vez um coelhinho que se chamava Atão. Tinham-no chamado assim por ele ter sido o primeiro. O primeiro em quê ou a fazer o quê ou porquê, isso, ninguém sabe. Certo dia, no princípio da Primavera, o coelhinho Atão encontrou a coelhinha Porquê, que estava ainda muito viçosa, dir-se-ia que em idade casadoira. Antes que ela seguisse o seu caminho, não se sabe para onde, correndo o risco de não a tornar a ver, o coelhinho Atão encheu-se de coragem e, olhos nos olhos, perguntou à coelhinha Porquê: «Queres casar comigo, coelhinha Porquê?» «Porquê?» – perguntou-lhe de volta a coelhinha Porquê. «Atão…» – respondeu o coelhinho Atão. «Porque eu cheiro bem.» Então, a coelhinha Porquê cheirou o coelhinho Atão, de alto a baixo, até ficar com o focinho no chão. Fez uma pausa, pestanejou e explicou-lhe, muito desembaraçada: «Então, parece-me bem, coelhinho Atão. O teu cheiro, efectivamente, é de macho eficiente; tens o teu complexo hormonal em condições e estou em crer que teremos boas probabilid…

O vendedor de colchas

Na semana passada, falei-vos de um Rosa – uma rosa singular. Singular de tão pequena e já tão madura, tão mulher. Falei-vos de coragem. E, engraçado – digo engraçado, porque não acredito muito em coincidências – já antes tinha escolhido o nome Rosa, não para dar nome a uma vida, mas para dar vida a uma mulher de coragem, desta feita, inventada por mim. Mas, como todos nós sabemos, ou ficamos a saber mal acabamos de atravessar os espinhados caminhos da adolescência, a vida arranja sempre maneira de dar um bailinho à mais arrevesada das ficções. E todas as histórias que inventamos, quando não se pespegam, literalmente, à vida, dela decorrem e derivam, naturalmente.

A esta Rosa inventei-a zangada com o lugar onde nós, mulheres, somos colocadas pelos homens, mesmo pelos mais educados e sensíveis – é como uma assombração histórica, que nunca se vai embora, mesmo para mim que nunca senti os rigores do machismo na pele. Sempre fiz tudo o que consegui ou me permiti fazer sem ter a sensação de …