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O coelhinho Atão e a Coelhinha Porquê



Era uma vez um coelhinho que se chamava Atão. Tinham-no chamado assim por ele ter sido o primeiro. O primeiro em quê ou a fazer o quê ou porquê, isso, ninguém sabe.
Certo dia, no princípio da Primavera, o coelhinho Atão encontrou a coelhinha Porquê, que estava ainda muito viçosa, dir-se-ia que em idade casadoira. Antes que ela seguisse o seu caminho, não se sabe para onde, correndo o risco de não a tornar a ver, o coelhinho Atão encheu-se de coragem e, olhos nos olhos, perguntou à coelhinha Porquê:
«Queres casar comigo, coelhinha Porquê?»
«Porquê?» – perguntou-lhe de volta a coelhinha Porquê.
«Atão…» – respondeu o coelhinho Atão. «Porque eu cheiro bem.»
Então, a coelhinha Porquê cheirou o coelhinho Atão, de alto a baixo, até ficar com o focinho no chão. Fez uma pausa, pestanejou e explicou-lhe, muito desembaraçada:
«Então, parece-me bem, coelhinho Atão. O teu cheiro, efectivamente, é de macho eficiente; tens o teu complexo hormonal em condições e estou em crer que teremos boas probabilidades de procriar e de vir a contribuir significativamente para a preservação da nossa espécie – os coelhinhos brancos e aveludados das histórias de encantar. A minha resposta é sim.»
Ao escutar isto, o coelhinho Atão pensou para o seu botão:
«Nunca me tinham feito uma declaração tão romântica… Eu cá, não sei porquê, estou capaz de me apaixonar por esta coelhinha Porquê e, por conseguinte, juntar o agradável ao útil…»
Então, os coelhinhos Atão e Porquê, sem mais nem porquê, deram o nó. Não houve registo civil, nem padre, nem boda, porque isto, caso não tenham reparado, não é uma história de pessoas, é uma história de coelhinhos. E tirando a parte de falarem a língua das pessoas, o resto passa-se tudo mesmo, exactamente, como na vida dos coelhinhos normais das histórias de encantar.
No dia seguinte, o coelhinho Atão e a coelhinha Porquê foram viver juntos numa toca lá para os arrabaldes da cidade. Como bons espécimes de coelhinhos brancos e aveludados que eram, a Porquê e o Atão passavam o dia inteiro enfiados em casa a fazerem o amor. Faziam o amor a toda a hora, em qualquer divisão do seu T3, dia e noite, noite e dia, ao som das músicas e reclames da telefonia. Sim, o jovem casal possuía um transístor a pilhas, oferecido pelo seu padrinho de casamento, o senhor Tadinho, um ratinho da Índia que tinha feito fortuna a vender tapetes persas em Calcutá, perdão, em Massamá. Adiante. Viviam muito felizes, os nossos coelhinhos, amando-se apaixonadamente, que é como quem diz, até à exaustão. «Não, não…» – dizia Porquê. E Atão, respondia: «Não…». Mas, ambos sabiam que era «sim» o que com tudo aquilo queriam dizer.
Até que, um dia, a coelhinha Porquê acordou muito enjoada. Não podendo conter-se, o coelhinho Atão pediu-lhe uma satisfação:
«Então, não queres porquê, coelhinha Porquê?»
E a coelhinha Porquê prontamente lhe respondeu:
«Então, coelhinho Atão, agora já não me apetece. Aliás, o teu cheiro até me está dar agonias…»
«Atão, porquê?...» insistiu o coelhinho Atão.
«Então, nem pareces um coelhinho, Atão!» – repreendeu a coelhinha Porquê. «O serviço já está feito e tu podes ir à tua vida.»
Mas o coelhinho Atão quis ficar. Não sabia bem porquê, mas queria viver para sempre, naquela toca, com a coelhinha Porquê. E a Porquê, olha, a Porquê não lhe perguntou porquê e deixou-o ficar.
E durante aqueles 2 meses, ou lá o tempo que demora a gestação dos coelhinhos, todas as noites, para se distrair a si e ao seu botão, o coelhinho Atão lia um conto… De fadas.
Até que nasceram 9 lindos coelhinhos, brancos e aveludados, de ambos os sexos, que cresceram rapidamente e rapidamente se fizeram à vida, fundando novas tocas e trazendo ao mundo lindas ninhadas de coelhinhos de ambos os sexos. Uns cheiravam melhor, outros pior, mas todos cumpriram o seu papel na cadeia alimentar e na preservação da sua espécie de coelhinhos brancos e aveludados das histórias de encantar.
Houve uns tantos que foram comidos por caçadores disfarçados de soldados, por raposas matreiras e lobos malvados, e parece que até houve um que ficou perdido para sempre no fundo sem fundo da cartola negra de um ilusionista pouco profissional. Mas, em qualquer dos casos, ou ainda que por velhice, depois do avô Atão e da avozinha Porquê, a seguir à geração dos seus respectivos pais, todos estes coelhinhos acabaram, naturalmente, por morrer. E, quanto a isso, nada puderam fazer.
Porquê? Atão, a vida é assim.

Maria, algures entre 2014 e 2017; encerrado hoje, 18 de Março de 2019

Post Scriptum

Este exercício foi esboçado há uns anos atrás num quarto de hotel (mais p’rá residencial de 3 estrelas) duma localidade pequena, fora de Lisboa, no rescaldo de um espectáculo ou de uma sessão de contos. Apresentar (testar) um trabalho em público é sempre uma grande emoção – nem sempre completamente positiva ou aprazível, mas inevitavelmente forte e açambarcadora –, ao que se segue um momento de alívio e satisfação. Logo depois, vem o vazio. Ficamos a pairar, fora da nossa ou de qualquer realidade. Como se estivéssemos sozinhos num cais, à espera de embarcar, mas sem destino definido ainda. Sem excitação nem nervosismo, só uma vaga expectativa.
Nessas manhãs, deitada em camas sempre novas, dentro de quartos desconhecidos, empoleirados numa qualquer rua de que nem o nome sabemos, ficamos em suspensão. Tudo é possível. Não temos máquinas de roupa para fazer, nem loiça do dia anterior para lavar, nem e-mails para enviar, nem companhia com quem conversar e planear itinerários culturais pela cidade. Nessas manhãs, por qualquer razão que não me é tangível, acontece-me acordar com os olhos muito abertos e escrever coisas assim, inconsequentes, um pedacinho ligth; nos dias bons as ideias chegam a ser nonsense. Normalmente, esqueço-as ou deixo-as penduradas, perdidas entre listas de compras, números de telefone e contas (de subtrair) do mês, num bocado duma folha dos meus caderninhos pretos do continente. (eu não uso moleskines; os cadernos e agendas da moleskine intimidam-me e, às vezes, até me enervam.)
Por serem tão espontâneas e gratuitas, acredito que estas historietas possam ter algo de fresco, novo ou, talvez, renovador; por isso as incluo neste meu espaço de «partilha literária».
Porque, normalmente, me divertem, classifiquei-as como divertimentos.

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