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Adeus, Pão-de-forma


A wolkswagem «pão-de-forma», já não é fabricada na Europa desde 1979, mas no México, Argentina e Brasil ainda continuou a ser produzida, até que em 31 de Dezembro do ano passado, este modelo foi definitivamente descontinuado, porque no Brasil, o último país a manter a sua produção, as regras de segurança apertaram e esta máquina já não consegue «corresponder» às exigências dos tempos modernos. A este propósito, os brasileiros fizeram um pequeno filme de despedida, razão deste meu post. Lacrimejei ao vê-lo, narrado na primeira pessoa pela própria Pão-de-forma (Kombi para os brasileiros) – uma velhota tranquila, generosa e cheia de pedalada.

Na minha família, sabíamos a idade das coisas e dos electrodomésticos por os relacionarmos com o ano de nascimento de alguém lá de casa. A casa de férias de Colares é da idade da minha irmã Rita, por exemplo. A máquina de lavar a roupa, a enceradora, o aquecedor a gás, todos estes objectos assumiam, entre nós, presenças quase humanas (é claro que isto era no tempo em que estas máquinas eram feitas para durar). E a nossa pão-de-forma branca (também conhecida entre nós por «A Carrinha» ou «A Furgoneta do Pai») tinha precisamente a minha idade. Acompanhou-nos desde 1972, portanto, até ao alvorecer do segundo milénio. Foi «abatida» aí por volta de 2005 e as despedidas, para mim, foram sentidas – não porque ela tivesse coração como nós, mas pelas pessoas, momentos e recordações que guardava dentro da sua generosa barriga de baleia. 

Nós, os mais novos, gostávamos de morder os bancos borrachosos e de puxar o travão de mão, que parecia tirado de um filme de ficção científica. E o raio da carrinha tinha um cheiro que eu não consigo descrever, mas de que não me consigo esquecer. Cheiro «a carrinha».

Os bancos de trás não tinham cintos de segurança. Brincávamos às curvas, vomitávamos (agoniados com os esses da estrada que ligava Sintra a Colares), dormíamos, comíamos, discutíamos e brincávamos lá dentro. Havia apenas um sortudo que conseguia ir ao pé da janela (uma janela com um palmo de largura) e apanhar vento na cara. As discussões eram acesas, portanto. Mas, coisa extraordinária, cabíamos todos.

Eu ia muitas vezes no porta-bagagens, com os meus 2 irmãos mais novos, porque nos bancos corridos, a lotação esgotava no 7º e eu era a 8ª. Mas lá atrás era o melhor sítio para se dizer adeus aos que passavam e fazer caretas aos carros que vinham atrás de nós.

A primeira viagem grande de que me lembro é uma ida a Viana, por alturas da Páscoa, com os meus avós maternos. Os campos estavam verdes e cheios de flores como nos desenhos animados da Heidi. A minha mãe apanhou uma pedra redondinha, branca, e ofereceu ao pai dela, o meu avô Manuel, como se fosse uma amêndoa. E ele, pacientemente, chupava, chupava, mas o açúcar não derretia… E o meu irmão Miguel, que era o palhaço de serviço, parece que deu um «pum» e depois alguém fez uma piada sobre «o primeiro galo a cantar é quem pôs o ovo». São as galinhas que põem os ovos, mas é assim que eu me lembro desta viagem…

Demorávamos um dia inteiro a chegar ao Algarve e tínhamos que deixar a carrinha descansar várias vezes. Era cá um respeitinho que lhe tínhamos; senão, começava a deitar fumo. Para mim, viagem que se preze continua a ter que ser pelas estradas nacionais e com um carro que faça barulho. Senão, é como se estivéssemos a viajar de avião. E eu prefiro o comboio.


Antes da nossa Pão-de-forma ser esmigalhada, escolhi como recordação uma relíquia que estava guardada atrás do banco do condutor – um limpa-vidros, ferramenta antiga, já um bocado podre, e guardei-o no meu carro da altura. Numa das vezes que o roubaram, levaram-me os óculos e aquele limpa-vidros que só a mim me servia. Há coisas muito estúpidas… 

Mas, entretanto, consegui ter uma carrinha (W-T4), uma neta da Pão-de-forma, que era a T2 («T» de Transporter; «2» porque foi o segundo modelo a ser criado). E tal como a sua avó, tem sido uma amiga inestimável, que já nos levou, entre outras coisas, numa viagem à Toscânia, que eu tanto queria fazer desde a minha adolescência. Ou seja, o coração já lhe começou a pulsar, apesar do seu corpo de máquina.
E um dos meus sobrinhos, assim que lá entrou, disse: «Cheira à furgoneta do avô.»

Maria, Abril de 2014

Post Scriptum:

Passaram-se quase 5 anos sobre este texto, que publiquei no Facebook, assim só para os amigos, e a nossa furgoneta, a nossa «Caravela» (termo que decorre do aportuguesamento e efeminação do seu modelo Caravell) continua connosco, p’rás curvas e também para as rectas.

Está velhota (é de 95, portanto, façam as contas). O ar condicionado tem dias, a caixa de velocidades também; perdeu o «W» das traseiras e o azul profundo da sua pele metalizada já conheceu melhores dias. Se as receitas, este ano, crescerem, havemos de pintá-la, porque ela merece, tamanhas têm sido as alegrias que nos tem proporcionado. Ora, então, vejamos:

1 – Dentro dela cabe toda a gente;
2 – Dentro dela cabe quase tudo (o «quase» é por causa do tronco de eucalipto com cerca de 5 metros de comprimento que eu quis trazer para casa há uns tempos);
3 – Dentro dela faz-se praticamente tudo (cozinhar, só de porta-bagagens aberto);
4 – Com ela, não há lugar para correrias. Já nos desenrascou em muitas situações de emergência, mas o ponto máximo do seu estilo, beleza e conforto revela-se, grosso modo, entre os 90 e os 100 km/hora (e, como é uma carrinha cheia de classe, não se ofende com buzinas nem impropérios de gente que não sabe gozar a vida);
5 – Dispõe de uma porta de correr com uma amplitude de cerca de 1 metro e meio, o que dispensa mais explicações;
6 – É indicada para a cavaqueira. As conversas de grupo que se têm durante as viagens são mesmo conversas de grupo; todos se escutam e entreolham e interpelam;
7 – A largueza do seu espaço interior, o fofo dos revestimentos e o antiquado, porém, extraordinário design dos seus apoios de braços resultam nas sonecas mais confortáveis e revigorantes que se poderiam ter dentro de um veículo (importa acrescentar o facto de eu ter costurado 2 mantinhas de fazenda que, no Inverno, elevam a coisa a um nível profissional);
8 – Fausto, o cão, viaja segura e confortavelmente, estendido no chão ou repimpado no banco central da 2ª fila, com vista privilegiada sobre o caminho;
9 – Os achaques que teve, decorrentes da idade, nunca foram severos, não tendo os custos das estadias na oficina ultrapassado valores razoáveis;
10 – Não é uma furgoneta dada a esquisitices: já transportou de tudo – frigoríficos, máquinas de lavar a roupa, prensas, árvores, roupeiros, artistas de variedades, pedregulhos, tijoleiras, e por aí afora (que o capítulo dos materiais de construção não me apraz desenvolver dadas as agonias que me provoca);
11 – Provida de grande generosidade, já se deixou conduzir por curiosos e necessitados de toda a espécie, tendo participado, desde que está connosco, pelo menos em 7 ou 8 mudanças de casa;
12 – E mais nada; já chega de elogios e demonstrações, que eu não recebo comissão da Volkswagem.

Portanto, a nossa Caravela azul, neta da Pão-de-forma branca do meu pai, acompanha-nos diariamente – estrada, auto-estrada, caminhos de cabras, serras e montanhas, ruas de cidade e cotovelos de inusitadas localidades. Estacionamo-la ao pé do coreto, ao cimo da nossa rua, sob o sol e a chuva, e ela não se queixa. Tendo em conta que é uma máquina, a cumplicidade não podia ser maior.

Entretanto, há pouco tempo estive no Brasil, de visita à família e, para meu grande deleite, só me apareciam kombis por todo o lado. Laranjas, verdes, amarelas, azul cueca. Kombis e Carochas – dois dos 5 modelos de carros que eu consigo reconhecer com segurança (viva!). E nada de pretos nem cinzentos nem metalizados. Anos 70 em todo o seu vigor. Parecia que estava dentro de uma polaroyd. Foi reconfortante.

Viajar, dentro destes automóveis, era uma experiência completamente diferente da que nos é dada a sentir hoje, quando nos fazemos transportar por indistintos veículos que, antes de mais nada, têm de ser novos, sofisticados e velocíssimos. Ar condicionado e faróis em forma de unha, que tê-los redondos ou quadrados é coisa antiquada... 

Viajar em máquinas antigas é uma experiência física. Quase uma aventura. Envolve-nos o corpo todo. Há contacto com o ar, sentimos a trepidação; vemos o tempo a deslizar, lá fora, organizado e sequencial, como quando andamos de comboio. 


Porque é que nos tornámos tão sérios? Porque é que toda esta sofisticação tecnológica me parece tão quadrada?
...

E depois desta conversa toda, aqui fica o tal vídeo de despedida da menina Pão-de-Forma. Disfrutem!
http://www.muitobom.com/volkswagen-cria-video-lindo-de-despedida-a-famosa-pao-de-forma-kombi/

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