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Despido para matar



Não conheci o meu bisavô António; por isso estou mais à vontade para falar dele. Porque se inventar um bocadinho, é fácil as pessoas perdoarem-me.

Filho de um espanhol, era alto, espadaúdo, muito moreno e com o branco dos olhos e o branco dos dentes muito branco. Eu julgava que ele era sapateiro porque me lembrava de ouvir a minha avó dizer, toda orgulhosa, que lá na aldeia onde viveu até aos 10 anos, ela e os irmãos eram os únicos que andavam sempre calçados, porque o pai dela lhes fazia, todos os anos, uns sapatos abotinados – e eu encaixei na minha cabeça que ele era sapateiro, mas a minha mãe, entretanto, esclareceu-me – sim, era sapateiro, quando calhava; o resto do tempo fazia biscates e negociatas, e era disso que vivia. E depois, devia ter bichos, galinhas e coelhos, e couves e figueiras. Toda a gente que vivia no campo tinha bichos e couves e isso não era novidade nenhuma.

Mas este meu avô tinha um cavalo, um cavalo que comprou na feira, como tantos outros que levou para casa para lhe servirem de veículo de quatro patas, maltrapilhos e enfezados. Mas este, vendeu-o ao exército, para a arte dos saltos, tal foi o treino que um dos seus filhos, o meu tio-avô José, lhe deu às escondidas. Bicho de grande inteligência e bom-senso, salvou-lhe a vida pelo menos por uma vez. Que eu saiba.

Estando a cirandar pela praia de Santa Cruz, a demolhar uma grande bebedeira, enfiou-se na cabeça do meu bisavô que havia de ir a cavalo até às Berlengas. E, para quem não sabe, estamos a falar de uma travessia marítima de mais de 40 km (andei eu a investigar no «google maps», tomando como referência o Cabo Carvoeiro). Mas ele queria ir, e que ia, e que chegava. E da ideia fixa passou à aposta e da aposta à entrada triunfal, mar adentro, montado no seu cavalo exemplar. O cavalo, treinado para obedecer, obedecia e nadava a caminho das Berlengas, com o meu bisavô no dorso e água a toda a volta.

Como é costume naquela costa, o mar estava picado. Depois de apanhar com uma, duas, seis ondas valentes, a sétima deitou o homem borda-fora. O que teria sido afogamento certo, seguido de congestão à conta da alarvidade de álcool ingerido, ou vice-versa, não fosse o ébrio cavaleiro, qual D. Quixote, nunca ter soltado as rédeas que o agarravam a tão bom nadador que, depois de o ter ajudado a esfriar as ideias, o trouxe são e salvo para terra firme. «O meu pai nunca largou as rédeas!», repetia a minha avó com os olhos a faiscarem e eu engolia em seco, de emoção, sem me atrever a abrir a boca (ainda hoje me pergunto qual o íntimo significado que esta imagem teria para a minha avó para a pronunciar com tanto dramatismo...).

Depois, estenderam-se a secar sobre a areia branca da praia as roupas, as notas e as caixas de fósforos que tinha ido comprar de contrabando e que trazia em todos os bolsos do casaco. Felizmente, estava um dia de sol, o que nem sempre acontece na nebulosa costa da nossa zona oeste.

Depois de tanta fanfarronice, nada mais restou ao valentão do meu bisavô do que esperar sentado, na areia, salgado e em pêlo. O cavalo também esperou, de pé, como habitualmente. Ao que tudo indica, o animal que, entre tantas qualidades também possuía a da descrição, não comentou com ninguém o sucedido e a reputação do meu bisavô manteve-se intacta.

Figura muito aludida nas memórias e historietas da minha avó e da minha mãe, este avô é descrito pela família que dele ainda se recorda, como um homem habilidoso, céptico e muito galhofeiro, sempre com uma piada na ponta da língua. Gostava muito do convívio. E parece que também era destemido – em parte, evidentemente, por ser céptico e, claro, por andar sempre montado num cavalo tão bem treinado. Também é provável que a sua temeridade adviesse do facto dele se fazer acompanhar, invariavelmente, de uma machadinha – era uma ferramenta especial, metade sachola, metade machado, que usava como bengala, para desbravar mato e para se defender de criaturas mal-intencionadas. Vivas - não era cá dos mortos, nem dos espíritos – dizia ele. E repetia a minha mãe, meio-século depois, porque a minha mãe herdou o cepticismo do meu bisavô António. É incrível, a força dos genes.

Dizem que andava sozinho pelos outeiros e azinhagas, à noite, sem se deixar intimidar por histórias de bruxas e assombrações, tentando perceber a origem das coisas e afastando o medo com graças. Quando as mulheres se juntavam à noite a conversar sobre coisas maravilhosas e arrepiantes: bruxas e bruxedos, maus-olhados, encruzilhadas, lobisomens, alminhas do outro mundo e luzinhas misteriosas que se viam passar nas serras antes da chegada da iluminação pública eléctrica (as mesmas histórias, aliás, que a minha avó nos contava, a mim, aos meus irmãos e primos, e a minha mãe ralhava «Ó mãe, não conte essas coisas aos miúdos que eles depois vão para a cama todos acagaçados...»); durante essas conversas, o meu bisavô ria-se e costumava concluir, displicente: «As bruxas são a garrafinha de aguardente que as senhoras trazem escondida debaixo do avental…» – e pela quantidade de vezes que a minha mãe citou esta frase, calculo que tal passagem, prenhe da mais profunda sabedoria popular, fosse o ex-libris do meu bisavô António.
Outra coisa que eu sei dele é que dormia nu. Não é que eu me andasse a meter nas intimidades lá dele e da minha bisavó, que aliás se chamava Maria e era muito pudica, mas acabei por ficar a sabê-lo por uma história que a minha mãe me contou e que, resumindo, é mais ou menos assim:
Certa noite, um ladrão de coelhos aproximou-se de casa dos meus bisavós, que ficava num desnível, ao lado da estrada, a fim de lhes rapinar uns tantos coelhos. Antes de se chegar à coelheira, pousou na estrada um saco atado com um lenço, onde levava todos os coelhos, ainda vivos, que já tinha roubado naquela noite.

A coelheira do meu bisavô tinha sido desenhada por ele e era de duas portas com uma divisória ao meio, com uma pequena abertura por onde os coelhos podiam passar de uma câmara para a outra. Então quando o ladrão abria a porta de um lado e enfiava a mão para os agarrar, os bichos fugiam para a outra e ele tinha de ir dar a volta. E depois, o mesmo jogo em sentido inverso. De modo que ainda devem ter andado um bom bocado a jogar ao toca-e-foge, coelhos e gatuno, que, desesperado, pegou fogo a um molho de palha para fazer fumo e assim obrigar os coelhos a saírem da toca.

Entretanto, o gato lá da casa deu sinal de que aqui há gato e o cavalo também zurrou ou relinchou de uma maneira diferente da habitual, o que fez o meu bisavô, que já andava desconfiado, a dormir com um olho aberto e outro fechado, saltar da cama e ir espreitar ao postigo. «Ah, seu gatuno dum corno, anda cá que eu já te digo!» - deve ter gritado. E toca de ir buscar a machadinha e sair porta fora, em pelota, a correr pela rua acima, atrás do larápio. Importa lembrar que o meu bisavô, nesta altura, já tinha entrado na terceira idade. Mas com aquela machadinha na mão era um autêntico Tarzan. E correu atrás do intruso com grande alarido, gritando, prometendo e maldizendo com quanta força tinha nos músculos vocais.

Com o alvoroço a vizinhança acorreu à rua a ver o que se passava. Atrapalhando-se na fuga, o ladrão tentou arrecadar o saco dos coelhos roubados, mas agarrou-o pelos fundilhos e os animais fugiram todos cá para fora. O gatuno pisgou-se e ficaram os coelhos de todas as cores a saltitar pela estrada, numa cena muito bucólica e «o vosso avô, ai meu Deus, um homem daquela idade, ali todo nu, com as vergonhas todas ao léu, à frente das vizinhas – da Cândida, da Purificação, da Maria do Céu...» – queixava-se a minha bisavó, Maria simplesmente, às netas da cidade, que eram a minha mãe e a minha tia.

Entretanto, as vizinhas apanharam uns tantos coelhos que, como não se soubesse a quem pertenciam, foram para o tacho e, naquela semana, toda a gente lá da rua se regalou com coelho à caçador e coelho em vinha d’alhos e coelho cá à nossa moda – isto tudo à custa da coragem do meu bisavô António.

Como não cheguei a conhecer a minha bisavó Maria não lhe pude perguntar o que é que as vizinhas – a Cândida, a Purificação, a Maria do Céu – tinham achado do marido dela, Maria simplesmente. Sim, o que teriam elas pensado quando o meu bisavô António lhes apareceu à frente, de madrugada, assim, despido para matar. Não lhe pude perguntar, mas não faz mal, porque acho que consigo imaginar.
  
Maria, Outubro de 2011

Post Scriptum:

Agora, que vivo numa aldeia no campo, lembro-me amiúde da machadinha do meu bisavô António. Tenho uma sachola de cabo curto, que trago muitas vezes comigo e que já se fez à minha mão, mas não é a mesma coisa. É boa para cavar, plantar, martelar e até a uso como podoa (ide ver à Internet, s.f.f., o que é e para que serve), mas nada tem que se pareça com uma arma. Não que me aflijam os ladrões e foras-da-lei, que aqui também os há, como em todo o lado, só que aqui temo-os menos. Parece que o confronto com gente mal intencionada, fora das cidades, é mais justo, mais à nossa medida. Não há esquinas, nem becos para essa gente se esconder com o propósito de nos surpreender, depois, com facas e conversas esquisitas. E, há que ter em consideração que, tanto os cães vadios como os javalis, quando provocados, investem de igual modo na direcção dos honestos e dos meliantes; os caminhos, se escuros, são escuros para todos. Se eu não vejo quem vem lá, tu também não. A natureza está ao dispor de todos, indiscriminadamente, em tudo o que tem de belo e de generoso, mas também de implacável ou aterrador. Na verdade, o abandono e o isolamento que caracterizam, hoje, a vida em meio rural colocam toda a gente em pé de igualdade – somos todos frágeis e dependentes. Todos igualmente marginais e potencialmente maluquinhos, ou mesmo perigosos. E há muitos caçadores com armas carregadas em casa e... nunca se sabe.  Enfim, por estas e por outras, já não há covis de gente má como antigamente e eu até durmo de porta destrancada. Em 3 anos nunca me roubaram coisa alguma e já perdemos a conta às vezes que nos esquecemos de telefones e chaves e malas e porta-moedas nos cafés da freguesia.

Concluindo, não careço de uma machadinha para me proteger dos vivos. Mas, ao contrário do meu bisavô António (e da minha mãe), quando a EDP falha não é só dos vivos que tenho medo, porque, aqui, a noite é mesmo escura. E densa. Os atalhos que percorro alegremente, de manhã, pelo meio dos bosques e dos matos, quando escurece, sobretudo no Inverno, tornam-se intransponíveis, pelo menos a pé. Lama, pedras, buracos, troncos atravessados. Sem lua não se enxerga um passo à nossa frente; quando ela está cheia, o mais que se vê assume contornos arrepiantes. Os barulhos que os animais fazem ao serão, os rangidos dos troncos, os roçares das folhas, os suspiros do vento ampliam-se e tornam-se quase palpáveis. O medo, medo puro, cerca-nos e trepa-nos pelas pernas acima. Aquele medo de tudo o que está do lado de lá. Assustador e, ao mesmo tempo, desafiante. Medo com um pequeno frisson, como costumo dizer. Igual ao que sentíamos quando éramos miúdos e a passagem do dia para a noite transformava completamente a percepção de tudo – a casa, o quarto, o roupeiro, a dispensa. Todas as manchas negras eram grutas onde se podiam esconder monstros e assombrações. Em todas as sombras que sobre a nossa cama se formavam conseguíamos ler contornos diabólicos e perfis de bruxas velhas. Era uma sensação má e boa ao mesmo tempo. Talvez seja por isso que as histórias de terror têm tantos adeptos e vendem tão bem. Mais do que primário, este medo é uma emoção ancestral. Que, de alguma maneira, nos liga à vida.
Quando regresso a casa nos dias de Inverno, noite feita, protegida dentro da lata da minha furgoneta, lembro-me da minha avó e das histórias que ela nos contava. Lembro-me das histórias de raposas, que me fazem sorrir, mas também das outras – daquelas que a minha mãe lhe pedia para não nos contar, porque depois fazíamos chichi na cama. Sob o breu das noites daqui, os lobisomens, espíritos e aparições parecem-me todos perfeitamente verosímeis. 

Nessas alturas, penso também no medo que devia meter – antes de haver iluminação pública e carros cheios de fluorescências para nos teletransportarem – quando de noite se avistavam, lá ao fundo, aquelas luzinhas a aparecerem e a desaparecerem pr entre os montes... «Olha, parece que hoje andam lá p'rós lados do cemitério...» Eu sei, mãe, que as luzes não eram alminhas, mas um ou outro (corajoso ou necessitado) transeunte que levava uma candeia ou uma lanterna a pilhas na mão e cuja luz, aqui e ali, conforme os esses do caminho, era momentaneamente tapada por uma árvore ou poste ou colina. Mas mete medo na mesma.

E penso na falta que o meu bisavô António nos faz, apesar de nunca o ter conhecido, nem um retrato dele ter visto. Às vezes, o vosso cepticismo faz-me falta, confesso. E, à machadinha, também não dizia que não. A propósito, quem é que a terá herdado?

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