Mãe: desculpa, mas
desta vez não consigo explicar-te. Sei que gostas, sempre gostaste, de tudo
muito explicado – uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa –, mas como
explicar-te o que nos aconteceu, mãe?
Eu tentei, sabes que
sim. Na noite em que tu partiste quase não dormi. Estive a escrever sobre ti,
dentro da minha cabeça, durante toda a noite. Mas foi impossível, mãe. A
história cresceu, cresceu, cresceu. Crescia, não parava de crescer, mãe.
Inchava para todos os lados e eu não a consegui obrigar a ficar parada, assim,
quieta e fechada dentro de letras que pudessem ser arrumadas sobre uma folha de
papel. E depois… aparecias-me tu, constantemente, a cair da figueira abaixo,
aquela lá de Colares; a fazeres-me rir, como que a dizeres-me: «Deixa lá isso,
Maria.»
É claro que vou
continuar a escrever as histórias que tu me contaste. Assim como assim, todas
as minhas histórias começam em ti. E, isso, dá-me muito material, mãe. E
depois, ainda vou ter de as repetir 50 mil vezes, porque não estás cá tu para o
fazer. E alguém terá de o fazer, claro.
Mas agora mãe, desculpa-me. Sobram-me histórias e faltam-me palavras…
Mas agora mãe, desculpa-me. Sobram-me histórias e faltam-me palavras…
Não, não estou a ter nenhuma crise criativa, mãe. A explicação é simples, não vale a pena complicar: é que a minha mãe morreu.
A menina muito morena,
aquela dos olhos grandes e mortiços, que puxava por um cordel uma lata cheia de
berlindes, rua afora, parou, fez-nos adeus, largou a caixa na estrada, desatou
a correr e dobrou a esquina.
Ainda a oiço correr, mãe, mas sei que já não volta atrás.
Já sei que ficaram os berlindes e blá, blá, blá, blá…
Mas é da menina que te estou a falar, mãe.
Já sei que ficaram os berlindes e blá, blá, blá, blá…
Mas é da menina que te estou a falar, mãe.
Sei que não querias
deixar-nos sozinhos, mãe.
E sei que investiste toda a tua coragem, engenho e força para o fazeres da melhor forma. Para todos. Mãe até ao fim, hãn?!?...
E eu, serei tua filha para sempre, mãe, não é preciso dar-te mais explicações. Até porque tu, agora, és toda, toda, toda ouvidos. Uma mãe elefanta, grande, tranquila e com umas grandes orelhas. Tenho tempo. Terei tempo. Vou continuar a falar-te.
E será impossível não continuar a falar de ti. Todas as minhas histórias começam em ti – já te disse isto hoje, não foi mãe?...
Mas, agora, não vais acreditar, só me vêm à cabeça balidos de cabras e limões.
E sei que investiste toda a tua coragem, engenho e força para o fazeres da melhor forma. Para todos. Mãe até ao fim, hãn?!?...
E eu, serei tua filha para sempre, mãe, não é preciso dar-te mais explicações. Até porque tu, agora, és toda, toda, toda ouvidos. Uma mãe elefanta, grande, tranquila e com umas grandes orelhas. Tenho tempo. Terei tempo. Vou continuar a falar-te.
E será impossível não continuar a falar de ti. Todas as minhas histórias começam em ti – já te disse isto hoje, não foi mãe?...
Mas, agora, não vais acreditar, só me vêm à cabeça balidos de cabras e limões.
Tu sabes porquê, não preciso explicar-te. Mas como sei que gostas muito de rimas, aqui te deixo esta que inventei ontem:
Um limão no limoeiro
(sempre)
Uma rosa amarela num canteiro
Interessa o Amor
Não quem chega primeiro.
Uma rosa amarela num canteiro
Interessa o Amor
Não quem chega primeiro.
Não consegues parar de
me ensinar coisas, a toda a hora, mãe.
E agora, com a forma como achaste por bem partir, foi como se me dissesses, como se me desses um último conselho:
“Para quê a mania das perfeições? A vida é perfeita assim.”
E agora, com a forma como achaste por bem partir, foi como se me dissesses, como se me desses um último conselho:
“Para quê a mania das perfeições? A vida é perfeita assim.”
Maria,
4 de Dezembro de 2014
Post
Scriptum:
A minha Mãe partiu ao fim de um dia de Outono – frio, mas não gelado – depois de um passeio com as netas
pelos jardins de Telheiras, sentada na sua sala de estar, ainda de gorro
enfiado na cabeça e na companhia do seu nono filho, a quem não via há já algum
tempo.
Partiu de foguete, a
minha mãe, como disse a minha irmã mais nova, a décima. E era assim que tinha
de ser. Qualquer outra forma teria sido inconcebivelmente dolorosa.
Morreu com 82, mas não
cheguei a vê-la como uma velhinha. Nunca consegui. Era avó, sim, mas ainda,
muito, e sobretudo, mãe. Eu ainda lhe pedia conselhos, companhia, dinheiro
emprestado nos meses mais apertados, botões, lãs e tecidos para as minhas
construções; não a poupava a emoções nem a perguntas. Nunca condescendi com
ela, como ela também não o fez comigo. E a cumplicidade e calor que desse
respeito mútuo resultaram, nas últimas décadas da nossa relação, foi o melhor
presente que dela podia ter recebido.
Não me lembro de uma
única vez em que eu, ou outro filho, tivéssemos tomado conta da minha mãe, por ela
estar de cama, com gripe ou com outra maleita qualquer. Para nós, a minha mãe
nunca estava doente. Era invencível, apesar da tensão alta e dos triglicéridos
e da visão que estava a perder, abruptamente.
Nunca foi mãe galinha, a
minha mãe; não nos tratava nas palminhas; as festas e as palavras doces
aconteceram, comigo, já depois dos 70 dela. Para os banhos de imersão, ao
domingo, preferíamos sempre a vigilância do meu pai, que tinha um toque meigo e
nos deixava engelhar na banheira, os 3 mais novos, a brincar aos submarinos e
tubarões. A minha mãe não tinha muita paciência para os banhos; o champô
escorria-nos sempre para os olhos.
Era independente,
atrevida e trocista, a malandra da minha mãe. Lutadora. Uma maria-rapaz muito sui
geniris – para apanhar figos, maçãs e azeitonas era a primeira a trepar às
árvores, uma perfeita macaca, e chutava os rabos dos netos como um taberneiro, mas
nunca saía à rua de roupão, usava sempre avental quando estava a cozinhar e encavalitava-se,
com a maior das naturalidades, nuns saltos com 10 cm de tontura para ir à
Baixa, comprar café e tecidos. Sempre que lá ia, trazia-nos chocolates,
daqueles da Regina, riscados a vermelho e ouro, um para cada um de nós. 10. Era
sempre muito democrática e feminista. Nunca a apanhei em falta. Por isso,
tive-lhe desde pequena um grande respeitinho. Menti-lhe apenas uma vez e foi
porque me pediram quase de joelhos (acho que me perdoou).
Não havia ferramenta que
a assustasse e, lá em casa, era ela quem desentupia os canos, nos arrancava os
dentes de leite e cortava os cabelos, à tigela. Partíamos a cabeça tantas vezes
que, a dada altura, começou ela a tirar-nos os pontos com a pinça de depilar as
sobrancelhas.
Ensinou-nos a todos,
rapazes e raparigas, a fazer tricot e a pregar botões, a coser à
máquina, a estender roupa e a usar um martelo.
Sempre confiável e
irrepreensivelmente íntegra, nem sempre foi sensata. Ao ponto de querer aprender
a andar de bicicleta quando já passava dos 60 anos… numa passagem estreita…
junto a uma pequena ribanceira feita de pedras… de saias… Felizmente, o meu pai
andava por ali, a furgoneta pegou à primeira e o posto dos bombeiros estava
sempre aberto.
Rio-me, não consigo
evitar, sempre que me lembro dela a regressar a casa, debaixo da asa do meu
pai, calçada com os tennis do meu irmão mais novo, um grande lenho nas
canelas que trazia à mostra, o carreto da bicicleta carimbado a óleo preto no
vestido de ramagens e aquele risinho matreiro na boca – um sorriso que ela
herdou do pai dela, que também era dado à malandrice. Aquilo, lá nos bombeiros,
deve ter sido um pagode – o meu pai, de semblante carregado, com aquele aspecto dele
sempre impecável, cabelos e barbas brancas, e ela, a minha mãe, naqueles
preparos, a entrarem na enfermaria, nas férias do Verão, sem nenhuma criança
pela mão. Foi a minha mulher, que se estampou a andar de bicicleta.
Rio-me sempre.
A minha mãe gostava muito
do mar, mas raramente ia à praia. Conversava com as ondas lá do cimo das arribas, com os
cabelos pretos a esvoaçarem, como o das estrelas de cinema. Uma vez (a única
vez), a minha mãe desmaiou. Tínhamos passado o dia inteiro na praia e ela teve
uma insolação. Quando a viu estendida no chão, branca como a cal, o meu pai
ficou completamente às aranhas. E nós: Ó mãe?... Mãe! Mãããeee!...
Tenho muitas saudades de
chamar «Mãe». Por isso, hoje, desforrei-me. Quem já não tem a quem chamar mãe
não me levará a mal. É que faz mesmo falta. Aproveitem enquanto podem.

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