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O rapaz do tambor


Era uma vez um rapaz que tocava tambor.
Cheirava a cabra e a madeira, aquele tambor, e o rapaz andava sempre com ele agarrado ao corpo, preso com uma corda vermelha, a tiracolo.

Certo dia, estava o rapaz em casa a praticar, «Pum-pum-Pum-pum-Pum…», quando foi interrompido por uma grande algazarra que chegava da rua.

«Vem! Tens de vir! Nós vamos!» – gritaram-lhe da estrada.
«Onde?» – perguntou o rapaz do tambor debruçado na janela.
«Então tu não sabes?... Vamos ver um menino que acabou de nascer. Dizem que é rei e que é, assim, como nós…»

O rapaz do tambor espreitou pela janela e viu passar na rua muita gente – pastores, camponeses, pescadores, mineiros… Riam alto e galhofavam. Todos levavam, nas mãos, em cestas, à cabeça, o que de melhor tinham para oferecer ao novo rei – fruta, queijo, galinhas, sardinhas, mantas, perfumes, licores, pedras de todas as cores.

«Ehhhh!... Esperem por mim!» – gritou o rapaz já a descer as escadas, e correu estrada afora, atrás da multidão. Nem teve tempo de se calçar; levava consigo apenas uma coisa – o seu tambor, claro.

Todas juntas, em fila indiana, aquelas pessoas andaram, andaram, andaram… Paravam de vez em quando, para comerem e beberem – pão, água, um punhado de azeitonas – ou para aliviarem a bexiga atrás duns pequenos arbustos, que naquela estrada havia poucas árvores. Era mais areia e pedregulhos. 

Mas, não sei como, o rapaz encontrou pelo caminho uma laranjeira. Pousou o tambor na terra, trepou a pequena árvore num instante e encheu a barriga de laranjas, doces como mel. «Hummm…» Guardou 2 ou 3 nas algibeiras e desatou a correr, para apanhar a caravana. «Opss!...» –  tinha-se esquecido do tambor. E toca de voltar atrás para o apanhar.

Muito ofegante, alcançou a cauda da caravana, onde seguiam os mais lentos. Para os encorajar, o rapaz do tambor pegou nas baquetas e começou a tocar um ritmo de marcha: «Pum-pum-pum… Pum-pum-pum… Pum-pum-pum…» Animados pelo toque do tambor, rapaz e desconhecidos andaram, juntos, muitas horas. Estavam tão sincronizados que não pareciam gente, com duas pernas apenas, mas antes um barco, com muitos remos, a deslizar sobre as águas rápidas de um rio.

Mas, conforme o dia corria e se aproximava do fim, arrefecia. Ao fim da tarde levantou-se um ventinho cortante e já ninguém conversava nem cantava. Abafavam as cabeças com panos, bufavam, esfregavam as mãos uma na outra e andavam. Os adultos começaram a caminhar mais depressa, a ver se aqueciam e o rapaz do tambor, que tinha as pernas ainda curtinhas (pois se nem 7 anos tinha…) ficou para trás.

Chegou a Belém já de noite. Era Inverno e fazia um frio de enregelar os ossos. O rapaz do tambor tremia de alto a baixo, enquanto procurava a casa do tal rei que tinha acabado de nascer. «Onde é que será?... Onde é que será?...»

Mas, não se enganou na morada porque, por sorte, havia uma estrela pendurada no céu mesmo por cima da porta.

Quando entrou, o rapaz do tambor ficou pasmado: é que aquele menino-rei vivia num estábulo, apinhado de animais. Se não me esqueço de nada, havia lá passarinhos, um burro, ovelhas, cães, gatos, ratos, uma vaca, dois sapos… Uns pastavam, outros mastigavam, dormitavam, regurgitavam …. Alguns deles sopravam e, com o bafo que faziam, aqueciam os pés descalços de um menino recém-nascido. E conforme sopravam, a criança tremia. Vocês acham que era de frio? Nada disso. Era das cócegas, claro.

A criança era muito pequenina e estava deitada no chão de palha, em cima de uma manta de lã azul. Não havia candelabros de prata, nem jarras de porcelana, nem arcas douradas, nem tapeçarias orientais – na verdade, aquilo nem parecia uma casa, quanto mais um palácio onde vivesse um rei. Mas o rapaz do tambor percebeu logo que aquele devia ser mesmo o tal menino-rei, porque dum buraco no telhado do estábulo descia uma luz que o iluminava, como naquelas noites de verão em que o céu está muito estrelado.

E, então, o rapaz disse lá da porta: «Eu venho ver o menino que nasceu. Também sou pobre; não tenho nenhuma prenda digna de um rei. Mas… posso tocar o meu tambor

A mãe do recém-nascido sorriu e fez que sim com a cabeça. O burro e a vaca, que gostavam muito de música, começaram logo a dar à perna, ou melhor, à pata, marcando o ritmo com os cascos: «Toc – toc – toc… Toc – toc – toc… Toc – toc – toc…».

«Toca – toca – toca! Toca!!!» - pediram todos os que estavam no presépio.

Então, o rapaz do tambor ganhou coragem, fechou os olhos para se concentrar e… «Pum-pum-Pum-pum-pum… Pum-pum-tchtee-pim-tim-pum-pim-pum-pum-pum! Ta-ta-pum! Ta-ta-ti! Ti-ti-ti-ti-ti-ti-tchteeeee! Pum-tan! Pu-pum-pum-pim! Pum-ta-pum-ta-pum! Pum-pum-pum-pum!…» E continuou a improvisar durante uns 10 minutos.

Quando acabou de tocar o seu tambor o rapaz tinha o coração a bater muito – parecia os sinos a darem as 12 badaladas da meia-noite. Nunca tinha tocado daquela maneira, para ninguém. Os animais estavam todos em silêncio a escutá-lo, os ratos comiam com a boca fechada, para não fazerem barulho a mastigar, o menino-rei tinha os olhos pretos muito abertos e, coisa extraordinária, sorriu – era a primeira vez que isso acontecia – sorria, não parava de sorrir para o rapaz do tambor. Para o rapaz e para o tambor. Não largava os olhos do tambor.

E no Inverno seguinte, no dia em que o menino-rei fez exactamente 1 ano, adivinhem o que é o que os pais lhe ofereceram como prenda de Natal?…

Estava o menino de gatas no chão, porque ainda não sabia andar, a experimentar o seu tambor novo quando o pai chegou a casa, trazendo, para além da lenha para o fogo, batatas, couves e bacalhau. E, não sei como, a ceia ficou pronta num instante, com uma velinha acesa e tudo. A família sentou-se toda à mesa, porque entretanto já tinham regressado a casa; agora, não viviam num presépio. E, em casa, tinham cama e fogão e mesa e cobertores.

O menino-rei, que ainda não tinha muitos dentes, comeu as papas; os outros, o bacalhau com as couves e as batatas. Todos conversaram, cantaram, riram e, no fim, bichos e gente, adormeceram com as barrigas cheias e os pés quentes.

«Haverão no mundo melhores presentes?» – perguntou o burro na manhã seguinte ao menino. E o menino, que só tinha um ano e já sabia falar, tão bem como o burro, respondeu-lhe: «Melhor do que a comida quente e tão bom como o amor, só o meu tambor. Pum-pum-pum-pum-pum…»

Maria, Dezembro de 2013 (revisitado em Fevereiro de 2019)

Post Scriptum:

Este conto foi livremente inspirado na canção de natal «The Little Drummer Boy» (letra e composição de Katherine K. Davis, EUA, 1941) que, em época natalícia, costumávamos cantar no coro de que fiz parte durante uma caterva de anos (não digo quantos para não vos intrigar com a minha falta de afinação). Não sei bem porquê, sempre que a entoava, emocionava-me. O tema, sendo tão singelo – para mim, a paixão duma criança pela música e o orgulho com que exibe o seu talento – transportava uma energia quase épica, quando o arranjo da composição punha toda a gente, pam-pam-pam-pam, a mimetizar a fala do tambor do rapaz. É forte, a metáfora veiculada na história, mas, convenhamos, o tambor é a personagem principal.


Numa versão (muito) reduzida, a pensar nas crianças pequenas e no tempo apressado da televisão, o meu conto foi emitido no «Agora» (cartaz cultural diário da RTP 2) no dia 25 de Dezembro de 2013. Esta mini-versão foi narrada por mim e musicada ao vivo pelo Francisco Esteves, para uma plateia de meia-dúzia de crianças, que ficaram vidradas no Francisco, então com uns 14 anos, e, naturalmente, no seu kit de percussão. Nunca falha – tambores e crianças é sempre uma combinação feliz (e eu não fui ingénua na minha escolha).

Nesta altura, o Francisco já tinha escola, jazz, e com 2 ou 3 ensaios, foi fácil para ele improvisar no intervalo das minhas palavras. Impressionante mesmo  foi vê-lo, admirar a sua concentração, a sua naturalidade, quando se sentou pela primeira vez à frente de uma bateria. Eu tive o privilégio de lá estar. O Francisco não chegava com os pés ao chão, que abanicavam livremente no ar. Por isso, não conseguia usar o bombo, o que foi uma benesse vinda dos céus para os nossos ouvidos. Porém, os ritmos, a diversidade e evolução da sequência, as inflexões e as pausas, eram de uma fluência extraordinária. Somos sempre mais entusiastas e complacentes com aqueles que amamos e que nos são próximos, mas o meu sobrinho Francisco parecia que tinha nascido para a percussão. Improvisava com a liberdade de quem tinha feito aquilo a vida toda. Sem ter escutado (na altura) um único disco jazz ou visto um percussionista cromo em acção. Devia ter uns 4 ou 5 anos.

Uns tempos depois de o deixar jammingar (acabei de inventar mais uma palavra) na bateria dele, o meu irmão Xico deu-a ao Francisco, também seu sobrinho. O meu irmão rendeu-se às evidências: aquilo que ele chegou a conseguir fazer, já adulto, depois de muito treino, aulas e tudo, não se comparava com aquela disposição natural do puto.

Foi também a pensar no dom deste puto que eu escrevi o conto «O rapaz do tambor», sabendo que todos os putos, antigos ou modernos, pobres ou ricos, anónimos ou reis, gostam de tocar o tambor.



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