Hoje, em dia cinzento de chuvas hesitantes,despedi-me mais
uma vez do meu pai.
Bem sei que ele já partiu para o outro lado há mais de 2
anos, quase 3, mas isso não quer dizer que as despedidas já estejam todas
feitas e enterradas. É coisa para se ir fazendo, ao compasso de profundas
expirações...
Fui uma última vez, sozinha, ao atelier onde trabalhou
durante mais de 50 anos, por sua conta e risco, e que agora acabámos de
desmantelar. Embora (finalmente!) vazio, ainda o encontrei lá, na roda dentada
verde do elevador, na grua amarela que se vê da varanda das traseiras e no
cheiro a papel (como o dele) que nunca irá desaparecer, por mais que se
esfregue o chão e que se deitem fora as pastas e os dossiers.
Espaço mágico, feito de estiradores e lapiseiras, tubos e
tubos de cópias heliográficas em tons sépia e azuis, as peças de «Lego»,
brilhantes, quase comestíveis, afias em forma de sino, creee-creee-creee, a
pedra-pomes no lavatório mínimo, os banquinhos ocre que todos juntos davam uma
cama de anão perfeita, as árvores das maquetes feitas com florzinhas secas que
apanhava nos jardins da Gulbenkian, os pionaises e os escantilhões, réguas,
esquadros, T’s e, claro, as imensas letras de decalque e os lápis de todas as
cores, afiados até à última volta possível…
As tardes passadas a desenhar e a fazer construções sempre
que o íamos visitar, ou, mais tarde, os almoços de sopa de feijão, pataniscas e
lambretas na carvoaria da Av. Conde de Valbom, onde ainda se conseguia sentir o
cheiro a tempo das tabernas a sério.
Espaço sempre aberto aos amigos onde apenas se exigia que
tocassem 3 vezes (porque nunca houve intercomunicador e era preciso saber que
quem vinha, vinha por bem) e onde às vezes se subia só para «fazer uma mija» porque
«passei aqui perto e estava mesmo à rasquinha, pá».
Havia sempre água gelada no frigorífico e um copo solitário
do qual bebia todos os dias. E muito trabalho, muitos serões e muitas
tentativas. 90% de transpiração e só o resto, de inspiração, dizia ele. Pouco
tempo.
«Então, pariga?» - costumava interpelar-me quando lá
aparecia.
Vamos em frente, pai, que ainda está tudo por fazer.
Vamos em frente, pai, que ainda está tudo por fazer.
Maria, 2 de Outubro de 2013
Post Scriptum:
Em Abril de 2015, depois de fechada a porta do atelier do
meu pai e distribuídos pelos seus 10 filhos quadros, livros, papéis e
lapiseiras, transportámos nos nossos carros e carrinhas o restante recheio para
o Forte de Sacavém, a fim de incorporar o arquivo do seu trabalho no SIPA /
Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, da Direcção Geral do
Património Cultural. Demorámos cerca de 2 anos a organizar papéis e desenhos
para que, já devidamente inventariados, pudessem ser recebidos por aquele
organismo. O seu espólio testemunhará, entre outras coisas, os mais de 7000
fogos de habitação social que tornou realidade, em tempo record, para
tanta gente anónima que dele se continua a lembrar como o arquitecto dos olhos
incandescentes e da farda de operário. O seu espólio é público desde Maio de
2016. Com muito orgulho.
O meu pai chamava-se Justino Morais e era um homem sonhador
e acutilante. Às vezes, brilhante. Amava a sua profissão e deixou-nos a todos,
sem excepção, escolher o que queríamos ser quando fôssemos grandes. Todos nós,
filhos e filhas, tínhamos muito apego ao espaço de trabalho do meu pai e sabíamos
o nº de telefone do atelier de cor. 3562618. Ligávamos-lhe ao final da tarde para lhe pedir que trouxesse, à noite,
borrachas, papel ou canetas novas e, muitas vezes, o furador, aquele preto e
pesado, que ía e vinha conforme apareciam novas folhas a incorporar nos nossos dossiers
da escola. Usei muito aquele número de telefone a pedir-lhe materiais e livros
e isto e aquilo. E recebi dele muitos presentes, em forma de lápis de cera e
blocos de papel cavalinho. Eu e o meu irmão mais novo, quando tínhamos entre os
4 e os 8 anos, desenhávamos todos os dias. Nessa altura, eu achava que, quando crescesse, ía ser
pintora. E o meu irmão queria ser pintor de paredes... (juro!) Mas, afinal, acabei por ter de inventar o meu próprio ofício, isto já bem
crescida, assim a modos que a entrar na meia-idade. E, para ilustrar esta historieta que aqui trago sobre o meu pai, deixo a imagem de 3 das preciosidades que encontrei
no seu atelier, enquanto o limpava e arrumava, e que fazem, agora, parte do meu
espólio de «historietadora».




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