Muito boa tarde, eicelentíssimo Senhor Doutor Juiz, venho entregar-me, pelo meu próprio pé e de livre vontade, porque sei que não pequei e estou praticamente, mesmo praticamente, inocente daquilo que me podem vir a acusar, porque as pessoas são más e têm as línguas como já se sabe.
Pois
venho-lhe eu, em carne, osso e pele, contar-lhe, em primeira mão, aquilo que me
aconteceu a mim própria, e que se não tivesse sido comigo, tinha sido com outra
pessoa e, por isso mesmo, talvez nem eu sequer acreditasse, mas foi com estes
olhos que a terra há-de comer e com estas mãos que o Senhor Doutor Juiz aqui
vê, e que a terra também há-de esmoer, se Deus quiser, foram elas que atiraram
a primeira pedra, por assim dizer. Pois, eu conto-lhe sem mais cerimónias,
Senhor Doutor Juiz.
Sabe lá,
Senhor Doutor Juiz, o que me havia de acontecer à saída do cemitério, quando lá
fui no domingo passado, pôr jarros frescos ao meu Jacinto… Não é que ia eu
quase a chegar ao portão, a enxugar os olhos ao meu avental, que eu ainda não
me conformei com o que aconteceu ao meu Jacinto, que me deixou sozinha com a
azeitona toda ainda por colher, ia eu a pensar nestas coisas tristes da minha
vida, quando dou de trombas com aquela coirona filha do demo – e não é por já
estar morta e aviada que a vou fazer de santa, Senhor Doutor Juiz – estava ela
de pernas ao léu, a apanhar sol, estendida, toda repimpada em cima da campa do
Zé Manel da Viúva, que ainda era meu parente por via indirecta duma prima que
era filha de um tio-avô meu, mas que ele nunca aperfilhou, claro, porque ela
até não era feia, mas era a modos que um bocado atolambada, derivado duma pilépsia que
apanhou dum dos lados da cabeça, quando era garota. Era à beira dessa campa que
ela estava, naqueles preparos, Senhor Doutor Juiz, a um domingo….
Eu achei
aquela cena uma pouca-vergonha, no dia do Senhor e sem respeito nenhum pelos
mortos, que já não se podem defender, coitaditos… Então, olhe, eu não aguentei
aquilo… Subiram-me cá uns ardores às orelhas que eu tive que ir ter com aquela
porca para lhe dizer umas verdades… Disse-lhe assim, sem tirar nem por, Ó
sua desavergonhada dum catano, olha-me nos olhos se fores capaz e Deus te
perdoe a mentira que me vais pregar com todos os dentes que tens na boca e que
ainda por cima é bem grande… Ela abriu os olhos, que os tinha fechados, a
mandriona, e vai de puxar as saias ainda mais para cima, só para me apoquentar,
Senhor Doutor Juiz, p’ra me azucrinar… E não é que eu estivesse a reparar com
muito atenção, mas pareceu-me que ela nem sequer trazia roupa interior vestida,
veja lá o Senhor Doutor Juíz… Ó, ó…
E eu tornei-lhe, ó
minha peçonhenta dum diacho, nega-me se fores capaz, que com esses olhos de
carneira mal morta, andas a desencaminhar o pobre do Senhor Vigário, que mal
saiu do seminário, coitado, e logo havia de ser posto à prova nesta terra, com
uma desalmada como tu. E não é que a rameira – que é como quem diz,
aquela grande puta, mas eu não queria dizer a palavra aqui à frente do Senhor
Doutor Juiz, por respeito ao Senhor Doutor Juiz – a velhaca teve a coragem de
me responder, cheia de falinhas mansas, é verdade vizinha, –
isto era ela a dizer-me – olhe que ninguém diria, mas apesar de ser tão
moço ainda, o Senhor Vigário é um homem muito caridoso e muito zeloso pelo seu
rebanho, sobretudo pelas suas cabrinhas… Não, não posso negar. Isto é, méééé…
Palavra de honra. E pôs-se p’r'ali a balir e a andar de quatro à volta da campa
do Zé Manel da Viúva, que já lhe disse que era meu parente por via travessa…
Prontos, não vou repetir.
Bem, como o
Senhor Doutor Juiz deve calcular, eu fiquei sem pio. E aquela tresmalhada
aproveitou logo para continuar a afrontar-me, a mim que tenho idade para ser
mãe dela, isto se ela ainda fosse viva, que já não é, coitadita, que também era
filha de Deus, que somos todos... E continuou ela p’ra mim, mas se a
vizinha se quiser juntar a nós – disse-me ela assim, tal e qual, a rir
e a olhar-me de alto a baixo – olhe que eu não sou ciumenta, nem o
Senhor vigário… Vossemecê pode aparecer além no abrigo do coveiro
hoje à noite, mesmo com o seu traseiro descaído – era do meu traseiro
que ela estava a falar, Senhor Doutor Juiz, mas não foi bem esta a palavra que
ela empregou – e depois disse-me que eles os dois, ela mais o Senhor Vigário,
também não eram esquisitos e numa coisa eram muito parecidos, o Senhor vigário
mais ela, é que tinham as portas do coração abertas de par em par… que era só
eu querer… Era só eu querer!
E foi aí que
eu não aguentei e arranquei a lápide, Deus me perdoe, do Toino da Silveira, o
da mula, que morreu afogado no poço da Lenita, numa noite em que a foi visitar
à socapa e não contou que o bode estivesse solto, coitado, mas até foi muito
bem feito, que é para não andar de noite em quintais alheios, e então eu atirei
com a pedra lá cheia de dizeres à cabeça daquela vadia, porque às mulheres da
má vida eu ainda posso perdoar, como Jesus Nosso Senhor fez com a Maria
Madalena, mas com fressureiras é que eu não aguento… E a mulher – não sei se
tinha a cabeça fraca ou assim – não é que se me ficou logo ali…
Tenho os
defuntos todos da minha aldeia, Senhor Doutor Juiz, como testemunhas das minhas
boas intenções, aquilo foi nervos, que já à minha Mãezinha, que Deus a tenha em
descanso, lhe passavam umas coisas assim, malinas, pela vista e ela ficava com
a força dum touro bravo… É que eu nem sei como é que pude com a pedra, Senhor
Doutor Juiz, mas foi dos nervos… Passou-me uma nuvem defronte dos olhos e
prontos…
E eu até já
devolvi a lápide – que ficou sem uma arranhadela sequer, nem uma – à mulher do
Toino da Silveira, que ela não tem culpa lá do marido ter caído ao poço com as
calças na mão. E também já pedi desculpa ao Senhor Vigário que é um homem muito
humano, coitado, e que de tão abalado que ficou nem disse a missa direita. Até
lhe fiz umas broas de mel e levei-lhe uma garrafinha de aguardente que sobrou
do meu Jacinto, a ver se lhe passavam os tremores. Como vê, eu não sou má
pessoa, Senhor Doutor Juiz.
Assim desta
forma lhe pede perdão e deferimentos e essa coisa toda esta sua freguesa,
Cândida da Purificação, que vive ali no Cabeço da Ametade – o Senhor Doutor
Juiz deve conhecer que parece que já o vi por lá, sim, naquele canavial junto à
propriedade da Senhora Dona Maria Amélia, mas isso não tem nada a ver, não é
verdade, que a língua das pessoas é como a gente sabe – estava eu a
explicar-lhe onde vivo porque eu não sou pessoa de me esconder e fugir às
minhas obrigações. Vim entregar-me às otoridades porque matei,
é verdade, mas foi sem querer. Não sou santa, qu’isso só a Senhora que lá está
em cima, e a modos que fervo em pouca água, já me dizia o meu Jacinto, que Deus
o tenha em descanso junto dele, mas, o Senhor Doutor Juiz tem de acreditar em
mim, que eu não sou má pessoa. E, prontos, acabei.
Maria, Outubro de 2014 (acrescido de várias incursões posteriores)
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