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Chamámos-lhe Rosa



Escolhi este texto para inaugurar as minhas publicações frescas de Março, mês da Primavera, por várias razões.

Uma delas, bem curiosa, tem a ver com datas. Há uns dias, combinei comigo mesma lançar-me o desafio de publicar um escrito da minha lavra todas as segundas-feiras, aqui, neste espaço público a que chamei a linha arisca, porque ela é mesmo arisca (e curva) como uma enguia. 

Hoje, é segunda-feira, mais precisamente, 4 de Março de 2019, e ao texto que vos falo escrevi-o a 4 de Março de 2016. Passaram-se exactamente 3 anos. Tinha de aproveitar a coincidência.

Sendo um texto antigo, de 2016, nunca o tinha dado a ler, o que o inscreve, simultaneamente, na categoria de «resgatado» e de «fresco», duas das gavetas (há quem lhes chame ‘tags’ ou ‘etiquetas’) que inventei para organizar o que vou escrevendo e, eventualmente, orientar as leituras de quem aqui apareça.

Tendo consciência de que a história que conto traduzirá, para alguns, um episódio triste, para mim, que a vivi, tristeza ou frustração não são, de todo, emoções que a possam definir. A querer um adjectivo, procurá-lo-ia entre os rumorejares da Primavera – tão encantadores, quanto misteriosos. Uma Primavera que nos chocalha com a sua despudorada beleza e que nos lembra, ano após ano, que é ela quem manda; porque ela é que sabe. Nós, apanhamos boleia da Renovação que ela tão sabiamente convoca e, à parte isso, não sabemos nada, nada controlamos. Amamos, apenas, quando conseguimos. E, desta vez, da vez que vos conto aqui, eu consegui. 
E, pelos vistos, voltei a escrever.
Porque a Primavera é que sabe.

...

Num destes últimos dias de Fevereiro ou primeiros de Março, em que pelos caminhos da serra o húmido Inverno se foi despedindo, aos soluços, e o sol começou a espreitar-nos, risonho, quase atrevido, entre os musgos dos muros e as cascas velhas dos sobreiros, deveria ter nascido a Rosa – a nossa Rosinha.

Chamámos-lhe Rosa assim que confirmámos a presença de mais um ser nas nossas vidas, dentro da minha barriga, a crescer. Foi-nos entregue nos Açores, no dia dos meus anos, no primeiro ano em que não recebi a habitual prenda da minha mãe, que já não pôde; já não está. O primeiro ano em que não me cantaram os parabéns; e o primeiro ano em que não me importei. Estava feliz. Ainda antes de saber.

O sentimento foi tão simples, tão puro, tão inteiro, que não merece o ruído de quaisquer efeitos literários. Estava feliz.

Não tenho escrito nem contado histórias desde então.

Esta história está-me encravada no coração e o amigo Tempo tem de correr sobre ela uma e outra vez, até a memória desta rosa, às vezes rosada, outras amarela, outras vermelho sangue, se transformar toda em ternura – uma ternura cheia, que possa fazer justiça à alegria que nos trouxe.

Vida.

A Rosinha pulava muito e ostentava um senhor nariz arrebitado; dimensões perfeitas, proporções habituais.
A Rosinha também tinha um cromossoma a mais. E um buraco no coração.

Morreu poucos dias depois de termos decidido recebê-la, assim, tal qual vinha, tal qual era. Depois de uma passagem foguete de 4 meses pelo planeta Terra, que conheceu apenas através de mim, das minhas artérias, da minha pele, das minhas emoções, da minha respiração, o coração da nossa Rosinha parou – como se parar fosse tão natural quanto continuar a pulsar. Morreu, aconchegada dentro da minha barriga, sem um ai. Percebi-o, também, sem ais nem uis. Percebi, só.

Percebi que tinha, tenho, Família.
E esta Rosa teve tudo a que qualquer Ser tem direito – teve um nome, uma madrinha, um pai e uma mãe que a amaram incondicionalmente, uma roca de lã azul, tios, primos e amigos que se prepararam para a receber, um companheiro cão, uma casa quente e tranquila que lhe serviu de terceira pele. Conheceu a serra, ouviu o mar e as árvores; segredou-nos mistérios indizíveis, encheu-nos de orgulho e, depois, foi-se. Sem um ai. Sem culpas nem desculpas nem medo. Assim o intuí. Assim o creio.

Pari-a na maternidade, com o pai ao lado, entre dores de serrote, sangues e urros.
Como acontece em qualquer outro nascimento.
Nascer.
Morrer.
Vida.
E, depois, levantei-me para a ver, tão pequenina e indefesa – uma menina, claro. Só podia ser uma menina. Um botão de rosa.

Chamámos-lhe Rosa desde o princípio e fomos pais até ao fim, como a minha mãe me ensinou a fazer.
Isso sossega-me. Mas há uma história que ainda tem que ser contada. Retribuída. Qualquer dia. É uma história muito breve, mas que mudou as nossas vidas para sempre.
Obrigada, Rosa.

Maria, 4 de Março de 2016




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