Era uma vez um rapaz, um rapaz assim como tu (comia, dormia,
sonhava, como tu; no Inverno tinha frio; no Verão calor; no escuro tinha medo…
assim como tu), só que este rapaz nasceu muito antes de ti. Nasceu na região
que hoje dá pelo nome de Hungria, no princípio do século IV depois de Cristo. Jesus
Cristo já tinha nascido, mas o Império Romano ainda não tinha caído. Nasceu
antes de Portugal se chamar Portugal, da Itália ser a Itália; a Alemanha era a
Germânia e França era Gália; só para tu veres há quanto tempo foi, Martinho
nasceu antes ainda de existirem dragões a chisparem fogo pelos ares, princesas
a pentearem os cabelos à janela e fadas daquela com chapéu em forma de cone a
transformarem cavalheiros em sapos… e vice-versa.
Pois é, o Martinho nasceu há muito tempo. Num tempo em que aos
rapazes não era dado o direito de escolherem a sua profissão. O pai do Martinho
era comandante do exército romano e o Martinho foi educado, ou melhor, treinado
para seguir a carreira do pai. E, assim que fez quinze, foi recrutado pelo
exército romano. Foi para a guerra.
Dizem que partiu um bocado contrariado; não queria ser
soldado. «Não quero, não quero não, ser soldado nem capitão. Quero
um cavalo que é só meu, seja baio ou alazão. Sentir o vento na cara, sentir a
rédea na mão. Não quero muito do mundo. Quero saber-lhe a razão. Sentir-me dono
de mim. Ao resto dizer que não.» (*)
Martinho disse que não, só que foi na mesma. Mas, nem tudo
era mau naquela profissão. Não se parava quieto, viajava-se muito, por todo o
Império Romano – e o Império Romano era um mundo, onde havia de tudo e para
todos os gostos. Paisagens maravilhosas, florestas, desertos, montanhas, mares.
E pessoas de todas as cores e feitios. Fazia-se muito exercício físico e andava-se
a cavalo, rédea na mão e espada à cinta. Uma espada a sério, não era cá aqueles
espetos de madeira que se vendem na feira…
É claro que nesta altura, ao Martinho, que não era sequer
baptizado, não lhe passava pela cabeça que um dia viria a ser monge, depois
bispo e até santo! Muito menos que iria morrer em França e que no dia do seu
funeral – no dia 11 de Novembro –, todos os anos, não sei quanto séculos
depois, tantas pessoas se iriam reunir para comerem castanhas, provarem o vinho
novo, para cantarem e festejarem o Verão de São Martinho. É espantoso: uma
estação do ano com o seu nome! Verão de São Martinho… O soldado Martinho iria
gostar de saber disto, mas nesta altura ele era apenas um rapaz como os outros,
– era valente, sabia lutar – mas não podia ter adivinhado.
Nesta altura, Novembro era Novembro, o Verão era no Verão, o Inverno
no Inverno, e pronto. No Inverno fazia frio, e no Outono chovia a cântaros. Era
assim que era. (isto foi antes das alterações climáticas, já se vê).
E isto tudo para chegar à história.
Estávamos no Inverno e o Martinho seguia montado no seu
cavalo branco. Não sabemos que idade teria quando isto aconteceu, nem qual o
nome do lugar onde isto aconteceu. Dizem que regressava a casa, mas Martinho
teve tantas casas… Estaria a caminho da terra onde nasceu, na Panónia, ou de
uma das cidades onde viveu? Pavia? Milão? Poitiers? A brincar, a brincar, pode
bem ser que a história mais importante da vida de Martinho se tenha passado
aqui mesmo, no teu País; se calhar, bem perto do lugar onde vives…
Certo, certinho é que era Inverno e estava um frio de rachar.
Martinho cavalgava veloz, cheio de pressa para chegar a casa, onde alguém
estaria à sua espera, fogueirinha acesa, umas castanhitas assadas em cima da
mesa, mais uns diospiros… E pão de centeio e vinho a cheirar a uvas acabadinhas
de espremer.
«Ai, que fome… Fssssss!... Ai, que frio!... Anda,
cavalinho! Galopa o mais depressa que puderes que eu quero chegar a casa antes
da noite cair. Voa, cavalinho!...»
Martinho abraçou o cavalo, encolheu-se debaixo da sua pesada
capa de lã vermelha e semi-cerrou os olhos para a chuva não o cegar.
«Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!
Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!...»
«Alto lá!» – gritou o Martinho, não sei se para
o seu cavalo se para si próprio. «Parece-me que está ali alguém,
debaixo daquela árvore…»
E estava. Um homem, um sem abrigo (mas nesta altura dizia-se
«um mendigo») agachado junto ao chão, quase nu, a tiritar de frio. Martinho parou o cavalo, desmontou, olhou para o homem e depois…
não fez perguntas. Pegou na espada, que habitualmente usava para lutar e matar,
e «zaca!», com um só golpe, cortou a sua capa de lã vermelha ao meio.
Cobriu o homem – a capa era grande e o homem franzino –, montou o seu cavalo
branco e seguiu o seu caminho.
«Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!
Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!...»
Ainda nem 5 km tinha percorrido, a chuva a toldar-lhe a
vista, quando encontrou outro homem encostado a um muro, mal vestido – em
corpinho bem feito, diria a minha mãe –, com um ar miserável e gelado. Martinho
parou o cavalo, desmontou, olhou para o homem e depois… não fez perguntas. Pegou na metade da capa de lã vermelha que tinha aos ombros e
aconchegou o corpo ensopado do homem.
Sem casaco nem gibão que o agasalhasse a ele, Martinho montou
o cavalo branco, encostou-se ao calor áspero da sua crina e seguiu caminho.
«Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!
Cata-cum! Cata-cum! Cata-cum!...»
Ainda nem 1 km tinha
percorrido quando… Martinho não
queria acreditar, as nuvens negras que cobriam o céu evaporaram-se e o sol
apareceu, assim de repente, secando a chuva e aquecendo a terra. Martinho sentiu um calorzinho a subir-lhe pelas pernas acima;
o cavalo branco abrandou.
«Cata-cum! Cata-cum! Ca-ta-cum! Ca—ta—cum… Ca… ta… cum… ca…
ta… cum… ca… ta… cum…»
Nesse momento, rapaz, cavalo, chão e céu caminharam juntos,
em passo de passeio. E regressaram a casa tranquilamente, muito aconchegados.
Não sabemos exactamente a que horas lá chegaram, se era noite ou dia, mas isso
também não interessa, porque estavam no Verão.
Martinho, agora, sabia como chamar o Verão.
E vocês sabem o que lhe disse a mãe quando ele entrou pela
porta de casa adentro?
«Ó Martinho, vai à adega e prova
o vinho!»
Maria, 11 de Novembro de 2018 (dia de
São Martinho)
(*) Poema de Eugénio de Andrade,
1986.
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