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Mulheres da Serra


Quando me mudei para a Serra, freguesia rural do concelho de Tomar, bem no umbigo de Portugal, quis escutar. E foram as mulheres quem mostrou mais vontade de falar; de não deixar cair no esquecimento as histórias do lugar, da família, das pessoas que marcaram as suas vidas.

São fechadas as pessoas aqui da Serra. E esta serra nem sequer é muito acidentada; não é cerrada nem isolada; não é especialmente pedregosa. Mas tem muitos picos, muito tojo, cardos, silvas… e poucas pessoas. Faz-me lembrar um naperon de renda verde-cinza, áspero e despenteado; incrivelmente rendilhado. Pontos abertos, assim, de propósito, para fazer efeito, encostam-se aos furos feitos pelas traças. E o desenho do crochet, visto de fora, a olho nu, acaba parecendo apenas um emaranhado de fios, buracos e rosetas, impossíveis de domesticar ou harmonizar. Uma confusão. Perplexidade, apenas, sem a alegria que a desarrumação habitualmente espelha ou convoca, por nos recordar aquilo que se fez ontem ou que ainda estamos a preparar para dar amanhã e depois.

Aqui, fora a natureza, que é sempre nova e agitada e surpreendente, tudo parece ter nascido já velho e desgraçado. Os olivais plantados pelos Antigos resistem, meticulosamente entrelaçados com os muros de pedra esboroados, os poços parados rentes ao chão e as casas em ruína. Por baixo do silvedo que cobre, indiscriminadamente, quintais e pomares, escondem-se famílias de perdizes, coelhos e javalis. Vemo-los de vez em quando, a rondar os campos de cultivo deixados ao abandono, ou atravessando as estradas de alcatrão roto e desbotado. Rematando o bucólico quadrinho, insólitas fontes ressequidas confrontam-nos, aqui e ali, com a vida que já houve, com as pessoas que se foram, com os caminhos que já não o são, porque ninguém passa. Folclóricas instalações decadentes, revestidas com os azulejos tutti-fruti que sobravam das obras das «maisons» que os pedreiros daqui (os famosos Patos-bravos) construíram nos anos 70, as fontes desta serra estão guardadas por santinhos. Mas, ainda assim, as torneiras foram arrancadas; se eram de cobre, roubadas. Os azulejos quebrados. Os coloridos Santos Antónios e as compostas Virgens Marias olham por nós, mas água, nada.

Nas encruzilhadas ainda se vê uma ou outra «alminha», enfeitada por ramos de flores plastificadas. Paro. Faço silêncio, mas não sei rezar pelos que já foram nem pelos que andam a arrastar-se no purgatório. Já não sabemos usar as capelas, nem os fornos, nem os moinhos, nem as azenhas. Não sei ordenhar cabras nem manejar uma picota. E todas as pedras que os homens em tempos empilharam se mostram obsoletas. Até a terra e as árvores, às vezes, nos parecem incapazes. E isto tudo porque não há pessoas. O vazio desgasta, consome e engorda.

É quente de escaldar no Verão e geladinha no Inverno, esta serra...

São essencialmente os homens quem frequenta os cafés e as tabernas da freguesia – os únicos lugares de socialização que ainda persistem –, mas são elas, as mulheres, quem sustenta e gere estes estabelecimentos, e também os negócios em geral. São elas quem mantém a economia familiar a funcionar. São elas que resistem. São também elas quem mais tem a dizer sobre a vida que aqui existiu e sobre a que ainda existe – sobretudo no recato das suas casas, lá atrás no quintal, no fogo da cozinha, dentro das suas cabeças –, mas que, afinal, raras vezes se lembram de nos contar alguma coisa que vá para além da vida dos outros e dos cansaços e frustrações da sua.

São pessoas magoadas, estas que encontro aqui na Serra. Carentes de atenção. E é essa atenção que eu lhes gostava de dar. A atenção de escutar; de perguntar; de querer saber. Porque os outros não querem cá saber... Lisboa não quer saber, o Estado não quer saber, o município de Tomar não quer saber, o pessoal da recolha do lixo não quer saber, a rapaziada nova não quer saber. Ninguém quer saber.

Perante esta mágoa toda, eu fico desarmada. É como se não me dessem alternativa. Ou parto, ou esqueço e adormeço, ou escuto e, assim, permaneço e consigo viver, ainda que no meio dos poucos e dos magoados. Disfarço-me de mim nos meus melhores dias e vou ter com elas, com as mulheres, fingindo ter todo o tempo do mundo. Peço que me contem. Sempre que posso, apresento-me como a neta do Embarcadiço (o meu avô materno que cá nasceu, mas que viveu grande parte da sua vida embarcado, no meio do mar, ou ancorado em portos exóticos, lá pelas Américas…) e não falo das minhas coisas. Peço-lhes que falem elas delas. Das mulheres da sua família. Das mulheres aqui do Lugar. Das mulheres. Preciso de me aquecer e por isso peço-lhes histórias de mulheres, que são sempre mais quentes. E quando estas mulheres recordam as outras é como se as ruas todas voltassem a ter cor e movimento. O fumo que ainda sai das chaminés envolve-nos numa bruma morna e perfumada, que liga este presente a todos os passados possíveis, reais e imaginados – por elas, por mim. Uma bruma reconciliadora. Uma bruma feminina, sem dúvida. Feita de saudades e lamentos, mas também de orgulho, energia e aceitação. E, pelas frestas das casas mal construídas, quando elas falam, até entra um arzinho de alegria. As conversas agitam com graça as cortinas de chita e desviam-nos o olhar dos rodapés carcomidos, das fórmicas manhosas, dos tétricos bibelots que enfeitam casas escuras, irrespiráveis, onde a vida parece impossível. Aquelas palavras, aqueles paninhos claros a flutuarem rente às janelas cheias de luz, conseguem distrair-nos das arrepiantes fotografias de cemitério, dos folhos bafientos das camas onde parece que jamais alguém dormiu. Mas sim, naquela cama dormiu gente; sonhou gente; morreu gente. Assim me vão contando.

Contaram-me.

Uma menina que se sentava por baixo da laranjeira e pedia ao vento que soprasse forte para fazer as laranjas caírem aos seus pés. Tinha fome, adorava laranjas, mas era pequenita e não chegava lá. Uma tecedeira, mais a irmã dela, que viveram solteiras para sempre. E faziam flores de papel. Uma analfabeta que, depois de ter visto a Virgem Maria empoleirada num sobreiro, começou a discursar para multidões de peregrinos. Vestida de branco, para sempre. A parteira que deixava os seus filhos sozinhos em casa para ir ajudar a trazer ao mundo os filhos das outras.

Fragmentos de vidas que ainda não sei bem como ligar, como entrelaçar, ou deslaçar. Ainda há muito para escutar. E reinventar, claro. Porque eu não estive lá mesmo. Eu estou aqui, agora, no meio desta serra.

O Inverno veio rijo e tenho que me aquecer.
Vou cobrir as costas com lã e abrir as orelhas.

Maria, Inverno de 2018/2019

(a fotografia foi cedida pelo bebé, agora homem, José Pedro. A velhinha chamava-se Maria Leopoldina e era do Carvalhal, a aldeia vizinha da minha, do lado de quem sobe para a Serra)


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