E a vida continua, aqui na serra. Chegados da Capital depois da despedida do meu Tio (chama que se
apagou…), encontrámos o nosso quintal – o nosso horto – carregado de vida. Os
cheiros e as cores já são os do Verão. Predomina o amarelo, claro, mas ainda se
vêem papoilas. Com o seu vermelho desbotado, sentadas na berma das estradas,
fazem-se passar por retratos doutros tempos, naturezas-mortas daquelas que
antigamente se penduravam por cima das mesas da cozinha.
A água da albufeira não desceu. Já estaria bom para banhos, não
fossem as nuvens. As brisas primaveris permanecem e há muitos anos que o meu
nariz não andava tão entupido. É a vida.
Já temos courgettes agigantadas, tomates pequenininhos e um
pepino. Há pimentos e ameixas a caminho e os diospiros têm agora o tamanho de
uma noz grande. Alguns caem para o chão antes do tempo, naturalmente para
aliviar a árvore do excesso de peso. E, também, para o Fausto ter com que jogar
à bola, claro. No fim da brincadeira, ele come a fruta verde e eu… arrepio-me.
Este ano, tudo vem despontando e crescendo a um ritmo
vertiginoso, quase milagrosamente (ou mais milagrosamente do que o costume).
Foi da água que caiu do céu na Primavera. E eu tive de podar mais uma vez as
roseiras da minha mãe.
Costumo esperar que as flores murchem, porque não gosto de
colher as rosas da minha mãe. Mas, uma delas teve de ser; a rapariga já não
aguentava com tanto peso. Cortei-a, endireitei-a e ela ofereceu-me um grande
ramalhete branco e cheiroso (tenho que inspirar com muita força, senão o
perfume não me chega ao cérebro – raio das alergias…). Está aqui à minha
frente, o ramalhete. Alimentadas por um púcaro de água, as rosas mantêm-se
vivas. Algumas delas já estão com aquele ar de senhoras marquesas a chegar aos
oitenta; outras, apanhadas ainda em botão, abrem-se pela primeira vez à frente
dos nossos olhos, dentro de casa.
Pouco tempo depois de chegarmos, fui interrompida nos meus
afazeres por um miado de gato bebé. Não se calava. Saí ao quintal e o bicho lá
estava – minúsculo em cima da rede. A mãe dele, esperta gata de rua, pariu
três, há pouco mais de um mês, no escuro do barracão da nossa vizinha Carminda,
que não os afogou porque quando deu com eles já os encontrou de olhos abertos.
Para os espreitarmos, temos de gritar: «Carminda, podemos ir ver os gatitos?»,
subir o murete que vence o desnível entre os nossos quintais, atravessar o
prado-mato das traseiras e, finalmente, passar a sentinela do «Rex», que às
vezes também é «Reco». O cão da Carminda está sempre preso a uma corrente, faz
muito barulho, mas é um pateta sentimental. Isto não interessa muito para a
história do gato amarelo, mas era só para vos dar o ambiente.
Foi uma operação de resgate complicada; o escadote não chegava.
Um muro de pedra, mais outro muro de tijolo e uma rede alta; 3 cães grandes e
enervados do lado de lá; do lado de cá o abismo (mesmo para um felino, a altura
devia ser assustadora). O gato tremia e chorava agarrado com unhas e dentes ao
último fio da rede, metade cá, metade lá. A nossa vizinha Carminda, mais as
suas costas tortas e o cajado de pau queixavam-se: «Ai, minha nossa Senhora…
Pchee!... Pchee!... Pchee!... Anda bichano… Ai, a minha vida. Ai, o raio do
gato! Do que se foi lembrar…» Ela com o coração na mão. Eu com o meu nas
minhas. «Será que devíamos chamar os bombeiros?...»
Mas, após várias tentativas e num número de circo muito pouco
elegante – e um bocado perigoso, justiça seja feita à artista – lá consegui
agarrar com uma das minhas mãos o corpo franzino do gato amarelo que, depois,
encostado ao peito fofo do Pedro nos agradeceu com um sonoro «rom-rom». E,
pronto, a nossa vizinha Carminda adoptou-o. Adoptou-os a todos. Era dum susto
que ela estava a precisar para tomar a decisão.
Anteontem, foi o Fausto quem me chamou. Rosnava e ladrava
daquela forma que usa para me dizer «Aqui há gato!» E havia. Porque, quando
cheguei ao quintal, o nosso gato, o Zorba, estava todo assanhado, a apontar
para um canteiro de agapantos. Espreitei e encontrei-o escondido, debaixo do chapéu-de-chuva
das monsteras – um dos velhos gatões de rua aqui do lugar. Bati palmas, mas ele
não fugiu. Não queria sair dali, o bichano. Enfiei os outros dois dentro de
casa e trouxe uns petiscos para o atrair e fazê-lo regressar à segurança da
rua. Mas, nem água, nem petisco, nem nada. Só queria sossego. Respirava com
dificuldade e pareceu-me doente, mas como não percebo nada de gatos, pedi ajuda
ao nosso vizinho de baixo, o Zé João, que subiu o escadote improvisado que
separa os nossos quintais.
Inspeccionámos o gatão da mascarilha, que não ofereceu qualquer
resistência; largava apenas, de quando em vez, uns gemidos pungentes. Não o
podia deixar assim, sozinho, a asfixiar. Tenho asma e sei como é. Liguei para o
veterinário e comecei a deitar contas à vida. Aconcheguei-o numa caixa o melhor
que consegui, enfiei-a na furgoneta e zarpei para a cidade. Mas, antes, ao
virar a segunda esquina, apanhei a minha vizinha de baixo, a Isabel (muito
intuitiva, como todas as mulheres podem ser) que reconheceu o gato pela cara,
mas não queria acreditar no seu tamanho encolhido – parecia que tinha ido à
máquina de lavar a 60 graus. «Gato Miau?...», chamou ela, e ele levantou-se e
deu várias voltas na caixa (escolhi-a grande para ele ficar à vontade). «É o
gato da Catarina; o gato a que ela dá de comer. Aqui no lugar chamavam-no
Carocho, mas ela renomeou-o Gato Miau. E é por esse nome que ele responde.»,
contou-me a Isabel no caminho. A Catarina, para vossa informação, é outra
vizinha, uma rapariga nova que não está cá agora.
Bem, o Gato Miau respondeu e eu pensei que ele estava a
arrebitar. Carreguei no acelerador e evitei os estremecimentos das lombas.
Chegámos a tempo.
Quinze minutos depois, estávamos nós a fazer estimativas,
cálculos e divisões para perceber como poderíamos suportar as análises e
tratamentos, o Gato Miau morreu.
Soube depois, pela Catarina, que ele era um gato friorento, que
gostava de dormir em casa e de urinar na rua, que era meigo, dado a festas e
tinha asma. Tantas parecenças...
Nessa noite dormi sozinha. O meu homem está para Lisboa e o
Zorba passou a noite toda fora. De manhã encontrei-o na nossa sala, aninhado na
almofada de retalhos, sobre a única cadeira onde bate o sol de nascente. Tinha
o focinho mascarrado de preto e as patas muito sujas. Perguntei-lhe «Onde
andaste tu, meu safardanas?...», mas ele não me respondeu.
Maria, 18 de Julho de 2018
Post Scriptum:
Há 5 anos atrás eu tinha medo de gatos e vivia em prédios
apertados, paredes-meias com pessoas de quem nunca soube o nome. Que nunca
perguntaram o meu; de quem, quando muito, recebia um distraído ou bem-educado
«bom dia». É novo para mim este planeta cheio de vizinhos e de animais, a quem
chamamos pelo nome, com quem interagimos sem fantasias nem disfarces. Pessoas
que não são amigos nem família, mas que nos ensinam, no dia-a-dia, o valor da
solidariedade, a importância da companhia e da proximidade. Seres que, não
sendo pessoas, nos ensinam a ser mais humanos. Mais nós próprios. Nunca me
senti tão eu, em todas as minhas facetas, níveis de profundidade, contradições, possibilidades
e limitações.
Sim, somos limitados; não controlamos quase nada. Fazemos o
melhor que conseguimos num tempo e espaço específicos. E amanhã pode ser
completamente diferente. Porque a vida nos vai acontecer de outra maneira.
Provavelmente, inesperada. E temos de refazer (quase) tudo.
Desde que estou a viver na província já vi nascer e
morrer muitas vezes. Aqui, a morte não está escondida atrás das altas paredes
dos cemitérios ou dentro dos livros para adultos. O nosso gato Zorba já trouxe
para casa, vezes sem conta, ratos e pássaros. A maioria, ainda vivos. Consegui
salvar alguns. Outros nem por isso.
Houve um pássaro bebé, uma cria de Fuim, a
quem me afeiçoei em particular. A nossa história de amor durou um dia e uma
noite. Roubei-o das garras do Zorba, trouxe-o aconchegado no decote muitas
horas, ensinaram-me a alimentá-lo, velei por ele de noite… Deixei-o a dormir
dentro de uma peúga, quentinho, numa caixa ao lado da minha cama, a salvo dos
predadores domésticos que connosco habitam. De manhã fui dar com ele parado e duro,
ainda morno. Enterrámo-lo num bocadinho de terra, junto à estrada, por baixo
das papoilas.
Sempre que posso, não intervenho. Mas, caramba, não consigo ver
ratinhos de campo a guincharem na boca de gatos que não os querem comer, mas
que os matam devagar, quase por engano, porque estão a brincar e a treinar as
suas capacidades inatas. Sempre tive pavor a ratos. Cobras e osgas e gafanhotos
até passa. Mas, ratos, nem vivos nem mortos. E olha, o que me haveria de
acontecer… No sobrado cá de casa temos sempre habitantes, um ou dois ratos (meu
Deus, faz com que sejam gays, por favor…) de tamanho considerável, daqueles que
andam de socas pela toca, a arrastar a mobília de um lado para o outro. Esses,
já há muito tempo que cá não entram, que eu tapei todos os poros da casa. Os
outros, pequenitos, traz-nos da rua o nosso amigo Zorba e eu, ironia das
ironias, obrigo o gato a cuspir, entretenho-o com biscoitos e resgato os desgraçados
(antes, simplesmente terríficos) roedores. Apanho-os debaixo dos armários,
atrás do frigorífico, com o coração a sair da boca (o deles e o meu) e levo-os
dentro da pá, delicadamente, para a rua. «Não voltem, ãhn?! Já sabem que aqui há
gato.» Regresso a casa toda arrepiada, mas infantilmente orgulhosa da minha
coragem.
Entretanto, temos uma gata nova cá em casa, a Babouska. É um
felino extraordinário, algures entre um lince e um lémur, muito curiosa e meiga
e, claro, independente. Era ela pequenina ainda, nós a gastarmos tempo e
dinheiro no supermercado, a escolher a melhor ração para gatos bébés, kitten
não-sei-quê, isto-e-aquilo para gatinhos, que ela não podia comer a do
Zorba porque ainda não tinha dentes para o granulado e, ela, vai de nos fazer
esta...
É meia-noite e eu estou sozinha, ao computador... Sossego total.
Escutem: estão a ouvir este rosnado?... Levanto-me, à procura da origem do som.
Será o Pedro, o homem, a ressonar?... Não. Fausto, o cão, a sonhar?... Não. Zorba,
o gato, a protestar?... Não. Pois, afinal era Babouska, a gatinha, a rosnar
– guardava uma presa entre os dentes, gananciosa, com uma expressão de felina assassina.
Fui acordar o homem – aquela imagem era demais para mim. Parecia um daqueles
filmes de terror com criancinhas possessas, a revirarem os olhos e a
engrossarem a voz. A pequena Babouska nunca tinha feito, até então, nada de
razoavelmente sonoro; nunca tinha miado, nem sequer para nos pedir comida ou
afagos; estávamos, até, convencidos de que era muda. E agora rosnava-nos ameaçadoramente,
enquanto recuava, defensiva, para um canto refundido, onde não lhe pudéssemos
roubar o rato que tinha na boca. A boca cheia. Nem sei como conseguia respirar,
quanto mais rosnar...
Accionámos o plano de emergência que costumamos usar para
libertar as vítimas do Zorba, mas… nada feito. A gata não largava o bichito e
fitava-nos de uma forma assustadora, quase maléfica: «Se me levam o petisco,
esfanico-vos a casa toda...». Eu, gritei que me desunhei, o homem vociferou e sacudiu
a fera violentamente, mas ela não cedeu. Escondeu-se a um canto e tivemos de
suportar o som hediondo de ossos a serem quebrados. Papou-o todo, cauda
incluída. Umas horas depois, outro. E na manhã seguinte, matou mais um – não o
engoliu porque devia estar completamente enfartada. Como a Babouska ainda não sai
à rua, pensei que devia haver um ninho de ratos dentro do nosso doce lar.
Procurei, espiolhei e… descobrimos! Era o Zorba que trazia os ratos da rua,
bebés, irmãos, um após outro, para os ofertar à sua nova amiguinha. Brincavam os
dois com eles e quando as pobres das crias deixavam de se mexer, a infanta riscada, com
os seus dentinhos de leite, papava-os.
O Zorba nunca os tinha comido, pelo
menos à nossa frente. Durante uns 2 dias, andei a olhar a Babouska de lado e
não a deixei dormir sobre a nossa cama, tal foi o nojo que a brutal cena me
provocou. Mas, enfim, os gatos são exímios caçadores; as fêmeas mais ainda.
Já me tinham prevenido. Está-lhes nos genes e eu, rapidamente, fiz as pazes com
a nossa Babouska.
Desde então não ocorreram quaisquer outros episódios
desagradáveis com ratos ou passarinhos – talvez por ser Inverno, estar frio e o
Zorba andar mais mandrião; talvez por não estarmos em época de acasalamento nem
de nidificação e não haver crias indefesas à mão de semear. Porém, aconteceu-nos
algo bem pior que isso; concretizou-se, aliás, um dos meus maiores temores.
Fausto, o nosso amigável cão, matou um gato.
Apanhei-o, em flagrante, no quintal da vizinha do lado, a atirar
ao ar com um dos irmãos do gato amarelo que havíamos salvo das garras dos cães malvados
que vivem do lado de lá da vedação de arame. Corri, o mais que pude, mas já não
cheguei a tempo; depois de duas ou três esticões na boca do Fausto, o
gatinho agonizava no chão, com as patas todas torcidas. Nunca tinha visto
nada assim, mas percebi que a coisa estava negra. Não tinha um arranhão sequer, mas a
coluna só podia estar quebrada. Peguei-lhe ao colo como se pegam nos bebés e
corri pela estrada fora, a caminho do veterinário, como quem foge para lugar
nenhum. Afaguei o seu pelo sedoso; reparei nos círculos castanhos sobre o fundo amarelo – parecia um pequeno leopardo. Não havia solução, pressenti-o, mas tinha de fazer alguma coisa. Então, continuei a correr.
O bichinho chorava e gemia de uma forma lancinante. Parei três
portas à frente da minha e vi-o a entregar-se. A partir. Tinha nos olhos a
expressão do meu pai, quando se foi. Igualzinha.
Sentei-me num degrau a chorar, alto e em bom som, como me
apeteceu. Como é que isto foi acontecer? Um gato saudável e feliz… Pedi-lhe
desculpa pelo Fausto, por nós, pela vedação que não arranjámos a tempo de impedir este desastre. Depois, enterrámo-lo debaixo de um sobreiro e eu plantei uma erva do mato por cima, para me consolar. O gato da pele de leopardo tinha a idade da Babouska.
E também há a história do Caju, o cão mais terno do mundo, que mugia como uma vaca e fugia de casa para nos vir visitar ao nosso alpendre, e que morreu envenenado. E
a temerária Kika, com o seu olhar de espiã russa, mais o seu filho estarolas, o
ingénuo Pantufa, que viviam o dia todo na rua e nos acompanhavam nos nossos passeios
diários. E nos mordiscavam os dedos. E desapareceram sem deixar rasto. E tantas outras
historietas de animais que vamos ouvindo nos cafés da freguesia. Aqui, todos
têm uma para contar – para rir à gargalhada ou para escutar, compungidamente, de
lágrima ao canto do olho. Cães, gatos, ouriços cacheiros… Este que nasce e o
outro que passa e fica; aquela que nos adoptou ou aquele que, entretanto,
morreu. Atropelado ou de um problema nos rins decorrente da velhice, não
importa. Nascem e morrem, à nossa frente. E quando estão felizes, mostram. E
quando estão descontentes, mostram. E quando gostam de nós, mostram. E quando
sofrem, mostram tão pouco, queixam-se tão pouco. Querem é estar bem. Querem é
estar vivos. São vida em estado bruto. Por isso, nos ensinam tanto. Por isso
estou-lhes grata. Daí, talvez, este já tão prolongado P.S. Tinha em lista de
espera muita bicharada a quem devia este agradecimento.
Os animais têm uma longevidade curta, já se sabe. Quando os
recebemos na nossa família, temos consciência de que iremos assistir à sua
morte. Sabemos que não irão tomar conta de nós nem perpetuar a nossa espécie
nem dar-nos netos com a nossa cara chapada. Porém, acolhemo-los; afeiçoamo-nos.
Esforçamo-nos para com eles comunicarmos, preocupamo-nos com o seu bem-estar.
Amamo-los, à nossa maneira, como é natural. Inevitavelmente antropocêntrica;
muitas vezes, egoista. Mas enfim, eles perdoam-nos, aceitam-nos. E, nós, sem
querermos, sem percebermos tudo, estamos a aceitar ser melhores pessoas – mais
sinceras, mais directas, mais humildes.
Oiço muito dizer: «Quanto melhor
conheço as pessoas, mais gosto dos animais.», pressupondo esta afirmação que o
amor que temos pelas pessoas, por motivos éticos e de justiça, só pode ser
inversamente proporcional ao que aprendemos a ter pelos animais. Discordo e não
compreendo. Para mim, a coisa é cumulativa, sempre. Quanto mais conheço os animais, mais gosto das pessoas, e vice-versa. E quanto mais gosto dos animais, mais conheço as pessoas, e vice-versa. Porque descubro semelhanças.
Porque encontro oportunidades – para fazer melhor, para me conhecer melhor,
para receber o outro de forma mais inteira. Melhor para todos. E acreditem: não me considero
especialmente optimista nem particularmente iluminada. Isto acontece porque a
Natureza está muito bem esgalhada. E nós, fazemos parte dela. Tenhamos a humildade do cão, do gato e do rato para dela
desfrutar. Sem culpas nem vergonha.
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