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O Lugar onde vivo – A Primavera acaba hoje


Estou, desde há quase dois anos, a viver num Lugar (não chega a ter estatuto de aldeia) no interior de Portugal, no chamado «Portugal rural» (o que é isso?) ou «Portugal profundo» (profundamente o quê?). Este lugar fica numa serra, bonita e pouco poluída ainda, no meio de sobreiros, pinheiros, eucaliptos, matos, casas e terras abandonadas, a cerca de 60 km a sul da floresta e das aldeias que ardem há mais de 3 dias.

Este Lugar onde vivo fica, também, a 7km de uma cidade «histórica», sede de concelho, onde há muitos séculos foi fundado um Convento, classificado como património da humanidade, que também veio nas notícias há uns tempos, e também por causa do fogo. E do abandono.

Tal como a aldeia de Nodeirinho, que passou a constar no mapa no momento em que perdeu, num único dia, mais de 1/3 da sua gente, a população do Lugar onde vivo não ultrapassa as 30 pessoas. Não conheço as 30 – devem ser «flutuantes». Que eu saiba, existem 3 crianças, embora nunca brinquem na rua – só as escuto.
Aqui, aprendemos a usar mais os ouvidos, e o faro. E o medo, quando aparece é mais escuro, mais pesado, mais real. (até os nossos fantasmas de estimação se tornam mais palpáveis e acutilantes).

Sábado passado, não abrimos a televisão durante todo o dia. Estava o Pedro a regar o nosso pomarzinho e a mini-mini-horta, a tentar refrescar futuras (!) abóboras e feijões, depois de um dia abrasador, quando umas quantas rajadas de vento repentinas fizeram estardalhaço e me arrancaram do computador. Entrou terra dentro de casa pelas janelas, voaram objectos, partiram-se coisas, as árvores agarraram-se umas às outras. «Isto são ventos ciclónicos!», gritei eu lá para as bandas do quintal. Depois, baixinho, arrepiei-me até à medula - «Está mesmo bom para atear fogos…». E corri para o terraço, onde me pus à luta com a roupa estendida, que me dava chapadas na cara enquanto eu tentava arrancar as molas que ainda a prendiam, para a guardar no alguidar, antes que a chuva viesse.

Mas, foi uma tempestade sem chuva. Daí por um bocado, o que o ar nos trouxe foi mais calor, cinzas e cheiro a queimado. Um cheiro que se entranhou na roupa.
Ainda hoje, não sei se o fumo e o ar pesado que circundou o Lugar onde vivo veio de Pedrógão Grande, se de Ferreira do Zêzere, que fica a 16 km a montante da Albufeira da Barragem de Castelo de Bode, (onde costumamos tomar umas belas banhocas doces, em total isolamento) ou se de Pai Cabeça, uma aldeia vizinha que também ardeu este sábado. Quando há fogo do lado de lá do rio, em terras de Castelo Branco, acontece o mesmo. Mas aí, costumam ver-se as labaredas cor-de-laranja. Já as tenho visto.

Depois de avisados por pessoas da cidade que, alertadas pelos noticiários, se preocuparam connosco, abrimos a televisão já de noite. Ficámos pasmos, como toda a gente normal.
Acompanhámos as notícias, reportagens, explicações e toda a intoxicação e exploração mediática da tragédia que aconteceu nas horas seguintes.

Depois de nos recompormos, voltámos às contas que tínhamos começado a fazer lá em cima, no terraço, enquanto perscrutávamos montes e vales à procura de focos de incêndio, como várias outras vezes fizemos desde que aqui estamos a viver, assim que começa a temperatura a apertar.

E, as contas – as verbalizadas - são estas:

1) Perímetro de segurança de 50m limpos à volta da casa?
(Não me parece… Ruínas cobertas de silvas a sul; a Nascente, terreno abandonado - emaranhado de matagal, canas e silvedo, que vence a diferença de cota e trepa pelo nosso pinheiro acima; a Norte, quintal de vizinha sozinha, velhinha e entrevada com mato seco até ao traseiro; a Poente fica a rua, meio alcatroada, meio terra-batida, coberta de buracos e com as bermas sempre por depilar. À volta do Lugar, em todas as direcções – campos de cultivo abandonados tomados por mato, estevas e javalis, pinhais, eucaliptais, casas vazias ou abandonadas dispersas, placards espalhados por todos os lados a dizer «Era» e «Vende-se». Uma estrada nacional que nos liga a Tomar e às aldeias com café, farmácia e MB. Ainda persistem alguns caminhos de terra batida, que ninguém usa – só os tractores passam a buscar madeira, de tantos em tantos anos. Levam os troncos, a luz volta a entrar e o caminho fica cheio de lixo inflamável. De vez em quando também cá vêm jipes e motas, participar em corridas em direcção ao rio. Amarram às árvores tiras de plástico a dizer «Tomar Cidade Templária» (ãhn?...) e depois, nada – deixam o barulho, os caminhos rebentados, a poeirada e o lixo. E também aparecem caçadores. Tenho mais medo de todos estes «visitantes» do que dos javalis. São imprevisíveis... Sim, eu continuo a usar, diariamente, estes caminhos e atalhos, mas a vida que encontro fica-se pelos rumorejares de bichos, árvores, ervas e regatos. E o Fausto a correr e a arfar. Nunca encontro pessoas.)


2) Água?
(As fontes aqui do Lugar e dos lugares em redor, construídas pelo povo nos anos 60 e 70 foram «desactivadas» - grotescos painéis de azulejo em ruína. Aqui em casa, não temos furo nem poço nem piscina, apenas um depósito que recolhe, do terraço, as sobras da chuva. É pequeno, mas ainda está a meio. Os vizinhos queixam-se que têm os poços a secar. A Albufeira, em Fevereiro, já estava mais baixa do que no ano passado, em Agosto. O nosso «relvado» (prado natural pacientemente aparado) ficou amarelo numa semana. Os alguidares e potes em que recolhemos a água que o céu dispensa já há muito evaporaram, claro. Há 3 ou 4 piscinas no lugar, mas as casas estão fechadas - as pessoas não vivem cá; as que vivem, escondem-se atrás dos altos portões das «maisons». Temos uma mangueira ligada à torneira da Companhia. «Amanhã, temos de comprar o adaptador para ligar a outra». Assim, em caso de azar, ele esguicha dum lado, eu do outro. «Ah! E enche os baldes!...». Em Lisboa, costumamos queixar-nos da chuva, que nos faz atrasar as rotinas diárias e nos deixa «neuras»…)

3) E se a nossa casa pegar fogo?
(Fizemos uma apólice de seguro para a casa e para o «modesto» recheio. Em caso de «necessidade última», está combinado, é pegar nos bichos, nos PC’s e pomo-nos a andar. «Que se lixem as coisas!...». Fiquei a pensar nas plantas e na caixa dos retratos…, mas na minha visualização, não me sobram mãos. Temos mais 5 lugares na furgoneta.)

A seguir às contas – as verbalizadas – vem a «check list»: TM’s carregados? Gasóleo? Máscaras? Mantas anti-fogo e toalhas? Garrafões d’água? Documentos? Nº de telefone dos Bombeiros e da Protecção Civil? E?… Tenho a sensação de que nos está a faltar alguma coisa…

Com fita-gomada, colo os números de telefone de emergência ao lado da porta da rua e aproveito para regar as plantas que temos à entrada da casa, na berma da estrada, que estão mesmo a pedir água.

E, agora, é sossegar o coração para ir para a cama. Vou ao terraço, em cuecas, uma última vez, farejar as redondezas. Nada de labaredas. Na rua está tudo sossegado – aqui, as pessoas são mais atentas e a solidariedade é coisa natural – se houvesse azar os vizinhos já nos tinham vindo avisar. Conheço-os a todos pelo nome. Eles estão habituados a safar-se sozinhos... Não se escutam sirenes. Os sinos da igreja e as Avés-Maria já se calaram há umas horas.

Afinal, deixei óleo essencial de citronela a queimar, para afugentar as melgas e disfarçar o cheiro a queimado, mas não resolveu nenhum dos dois problemas. Estou toda picadinha. Olho para a N.ª Sr.ª de Fátima, rodeada de flores e pastorinhos, que está ao lado do micro-ondas, dentro da mala de madeira em que viaja, há décadas, pelas casas do Lugar onde vivo. Calhou-nos a nós, nesta semana. «Ainda bem que estás aí; tão depressa não te vou entregar à vizinha.»

E, na cama, voltam à carga as contas de cabeça. As outras, as contas que não verbalizamos, mas que nos apertam e empurram. Ando, já andava, ainda antes do fogo, a moer-me com perguntas e a sentir-me empurrada, embora sem saber para onde, para fazer o quê.

Pessoas abandonadas à sua sorte no fundo de vales esquecidos… A aflição… Tudo preto, tudo a arder. E os jornalistas a fazerem perguntas de cá-cá-rá-cá-cá. De caca…
Os outros, fugiram e ainda foi pior… Nem quero pensar nisso.
Então, e as vacas, os porcos, as cabrinhas, galinhas e ovelhas - tudo queimado?... E os bichos do mato? E as Árvores? E as casas das pessoas? E a terra que as alimentava?
Então, e eu? O que estou eu a fazer aqui no meio dum «Portugal rural» todo queimado, abandonado, desprezado, alcoolizado, disperso, desenraizado, descrente, deprimido, complexado, subestimado? Sinto-me sempre no meio. A meio de qualquer coisa.

O que é que aconteceu às pessoas que aqui nasciam, cresciam e trabalhavam?
Foi-se o «orgulhosamente» e ficou apenas o «Só».
«Sim, sim, é preciso fazer o reordenamento do território!»
Mas, território sem pessoas, é paisagem – na melhor das hipóteses. Estradas esburacadas, mono-culturas, vivendas gigantescas à beira da estrada e casas de férias legalizadas (como?) a 40 metros da Albufeira, com direito a praia privativa num concelho onde não existe uma única praia fluvial e onde os transportes públicos são duas carreiras por dia – para ir e para vir.
E, depois, há também os meus vizinhos, que dão muitas calinadas no português, andam sempre nos médicos e perdem cedo os dentes da frente.
A única maneira de tão poucos gatos-pingados entrarem para as estatísticas é quando as desgraças acontecem. E, de repente, lembramo-nos de que somos iguais, podíamos ter sido nós. Somos humanos - quando é mesmo preciso, ajudamo-nos, sacrificamo-nos.
Mas, é preciso chegar aqui, para olharmos à volta? Para trabalharmos em conjunto?

As pessoas estão tão sozinhas.
Não há pessoas suficientes para levar esta empresa por diante.
Sem pessoas, fica tudo mais difícil, mais impossível, mais preto.

E a Primavera, que devia ser vento, violeta, amarela e rosa, acaba hoje, assim.

Maria, 21 de Junho de 2017


Post Scriptum:

Este texto foi escrito no rescaldo da primeira leva de incêndios de 2017, que deflagraram mesmo à entrada do Verão, numa altura em que o calor ainda deveria estar apenas ameno, e que chocaram (para não dizer traumatizaram) todos os que vivem em Portugal, mesmo aqueles que habitam e se movimentam apenas nas grandes cidades. Foram fogos múltiplos, muito intensos, extensos e que, ao contrário da habitual desgraça que se repete todos os anos, não atingiram apenas as florestas. Destruíram aldeias inteiras e mataram gente. Não apenas um ou dois bombeiros. Não apenas um velhinho incauto e isolado. Mataram gente nova, crianças, famílias.

Em 2017, Junho foi escaldante. Extinto o fogo, as discussões continuaram acesas.

E, em Agosto, mais do mesmo.
Andava eu a caiar, de volta do quintal que temos virado a Norte, escaldando musgos e líquenes, sobrepondo camadas de leite branco ao longo dos muretes e paredes enegrecidos pela humidade do Inverno, de turbante na cabeça, a suar em bica, tocam-me à porta. Estávamos em plena hora do calor. (No Alentejo devia estar tudo na sesta, mas eu, mais a minha teimosia, estávamos sob a chapa do calor, a escorrer; a «aviar caroço», para ver se partíamos de férias com a casa branquinha.) Fujo do sol, corro para a porta; ajeito o turbante. Era a vizinha da frente, em pulgas, a avisar-me que havia fogo. Sim, ali mesmo, à beira de Castelo Novo – que é o nome do Lugar onde vivo (mas não tem Castelo e é tudo menos novo).

Tínhamos adiado a meia-dúzia de dias de férias que havíamos programado para esta altura precisamente por isto. Com as temperaturas tão fogosas, qualquer aragem que se avizinhe é motivo de alarme. O fogo estava de novo à espreita. Não íamos deixar o gato preso dentro de casa, sozinho. Ficámos.

«A sério? De que lado está?» Fui chamar o meu homem e fui para a rua. Juntámo-nos aos vizinhos que controlavam o foco de incêndio com a calma de quem já passou por isto milhentas vezes. Mas, eu não. Nunca tinha passado. Quando a presença do fogo é assim tão próxima, quando a distância se pode contar em passos, o nosso corpo é tomado por uma agitação incontrolável. Ficamos explosivos, com a respiração acelerada. É uma sensação muito particular e inquietante. Ofegante. «Já avisaram os bombeiros?» – pergunto, tentando contribuir com algum pragmatismo. «Não atendem! É sempre a mesma coisa…» E as queixas e acusações galgaram, rastilho fora, na direcção do fogo que crescia, mesmo aos nossos pés. Corri para casa, muni-me de TM e de todos os números que podiam ajudar-nos. Consegui falar com uma menina do 117 que me informou que o incidente já tinha sido comunicado. «Então, porque não aparece ninguém?...»

Apareceram, 15 ou 20 minutos mais tarde, helicópteros militares e um Canadair a largar água, que, empurrada pelo vento, se transformava num orvalhinho insignificante. «É para o outro lado, pá!». Por esta altura, o fogo já se tinha encrespado e não havia meio de o mandar embora. Como é que uma fogueirinha tão localizada se tinha transformado, mesmo nas nossas barbas, numa parede de fogo que avançava como um exército? «Este, não vem cá.» – sentenciou o meu vizinho da frente que cá nasceu e por quem já passaram, ciclicamente, os grandes fogos da história deste lugar. Aproveito para me abeirar dele e informar-me sobre os procedimentos «tradicionais» de emergência «Ah, usas as câmaras-de-ar dos pneus para abafar as labaredas?... Bates com elas… E ramos…» A displicência com que os homens falavam do que se estava a passar, tranquilizou-me um bocado. Depois, percebi que, nestes momentos de aperto, as pessoas que vivem nestas áreas rurais pensam apenas na salvaguarda das suas casas, quintais e hortas. O resto, deixa arder. «Este não chega cá. Deixa queimar; p’ró ano já estamos sossegados; não haverá nada p’ra arder.» E outro: «Isto, de 5 em 5 anos, há uma queima destas; é para manter o mato baixo.» E eu, bicho-do-mato, só pensava nos outros bichos… Os coelhos com as caudas em chamas, a espalharem o fogo na sua fuga espavorida, as crias nas tocas, as águias, as colmeias… Tudo a correr, esbugalhado, a fugir, a morrer… E, as árvores, paradas, presas, a aguentarem de pé como as bruxas castigadas pela inquisição…

Os aviões continuaram a passar, a encher tonéis de água na albufeira da Barragem de Castelo de Bode, mesmo aqui ao lado, e a despejá-la sobre as famintas labaredas, enquanto nós assistíamos, meio ansiosos, meio desiludidos, ao espectáculo. Parecia um teatrinho de fantoches – uma borboleta a esvoaçar por cima de uma lareira, uma e outra vez, a urinar em cima das chamas, adivinhando-se os contra-regras lá atrás, atarefados nos bastidores, esguichando jactos de fumo preto na retaguarda do palco, para adensar o efeito dramático da cena. «É para o outro lado, pá!»

O palco foi escurecendo e, entre as corridas de terraço em terraço e as conversas desconexas, fomo-nos habituando à ideia de que aquele fogo vinha para ficar. Quando a noite chegou, os aviões foram-se embora. Por terra não tinha chegado, ainda, ninguém para nos ajudar. Agora, estávamos sozinhos com aquela parede vermelha a crepitar ao fundo da noite. Deixa arder.

O vento esteve a nosso favor e empurrou o fogo para o lado do rio, consumindo centenas de eucaliptos e pinheiros pelo caminho. Mas, primeiro, subiu para o Carvalhal, a aldeia vizinha. Telefonei para uma senhora amiga que lá vive, a avisá-la de que o incêndio que aqui começou estava a galgar a encosta. Foi a filha quem me atendeu, porque a mãe, octogenária, andava com a mangueira na mão. As chamas já lhes tinham chegado ao quintal. (onde vivem cabritos e galinhas e cães e gatos!...) Os carros dos bombeiros não conseguiam passar porque várias pessoas se lembraram de estacionar nas estreitas ruas do lugar para irem «ver o fogo». Estavam ali para ver e não ajudavam.

Infelizmente, já tive o gosto de confirmar que esta é uma prática habitual no nosso Portugal profundo. Nas auto-estradas abranda-se para se inspeccionar os automóveis amachucados depois de um acidente; nas cidades, juntamo-nos ao redor das pessoas atropeladas nas passadeiras para assistir à reanimação dos feridos; no campo, vamos em peregrinação, carros em fila indiana, ver o fogo.

Não vos vou contar tudo o que aqui se passou, porque esta noite foi longa e a nota de rodapé já vai extensa. Resumindo: depois da passagem desta frente de fogo, que vimos nascer a Sul do Lugar, a uns 200 ou 300 metros das nossas casas, e que queimou hectares e hectares de floresta, mais os bosques e quintais e moradias de férias, até se deter à borda do rio, obrigando várias pessoas a serem evacuadas das suas casas de barco; depois deste, dizia, outras duas frentes em chamas acossaram Castelo Novo. Pouco mais de 1 mês passado sobre a tragédia de Pedrógão Grande, de cuja percepção pessoal dei nota no texto que atrás resgatei, os 3 vértices do pequeno triangulo onde vivo foram lambidos pelo fogo. Literalmente. Gravei as chamas no meu TM, assim como a minha voz, tremelicante, às 4 da manhã, acompanhada do silvo tenebroso que se escutava por baixo do meu alpendre das traseiras. O vuuuuuuuuuu que o fogo faz enquanto engole as árvores é 100 vezes mais arrepiante que qualquer grunhido de ogre das histórias para assustar crianças. E nós, sentimo-nos crianças, frágeis e angustiadas, à procura de quem nos console.

No espaço de 15 horas, as nossas casas estiveram por 3 vezes sob a ameaça do fogo; isto só em Castelo Novo. Foi uma noite de doidos. Ferreira do Zêzere, Ourém, Abrantes, todos os concelhos vizinhos, o país todo a arder. Sirenes a noite toda. Acolhemos no nosso Lugar bombeiros de Odivelas, Rio de Mouro e de outras localidades do distrito de Lisboa, que não conheciam o território, a quem tivemos de ensinar os caminhos para eles poderem ir ajudar as pessoas mais isoladas. Que, soube no dia seguinte, a dada altura, ficaram sem água nos canos. Isto tudo às escuras. A GNR vinda não sei donde fazendo os preparativos para a evacuação. «Sim, a senhora é idosa e vive sozinha. Mas, não, a Carminda pode ficar. Está a dormir. Se tivermos de sair, vamos buscá-la.»

Incansáveis, os bombeiros conseguiram impedir o fogo de entrar no lugar de Castelo Novo. Na manhã seguinte, tudo escuro. Folhas de eucalipto carbonizadas pousavam, como pétalas, sobre o nosso pomar. A Carminda não deu por nada (!): «Bem me pareceu ter ouvido uma sirene ou coisa assim...» O branco das paredes caiadas de fresco do nosso quintal resistiram. Foram o meu consolo naquela manhã escura, a cheirar a carvão. A cheirar a morte.

Não escrevi nem publiquei nada a este propósito. Respondi, apenas, aos amigos e familiares que nos procuraram, preocupados. Recusei-me a participar, tanto na exploração mediática dos efeitos espectaculares das labaredas e das desgraças, como no abuso de que as pessoas que vivem em território rural foram vítimas durante aquela quadra dantesca. Rostos desfigurados pelo medo e pela aflição, goelas abertas em pânico, chorando e praguejando, mãos na cabeça, correndo como baratas tontas de cá para acolá – imagens grotescas reproduzidas, repetidamente, nos televisores das casas, dos restaurantes e de todos os botequins, à hora do jantar e do almoço e do dejejum. A toda a hora. Tipo «ultra reality show». E depois, para compensarem, para ajudarem estas populações, para mostrarem o lado mais risonho da vida no campo, as estações de televisão também começaram a emitir concursos onde premiavam a aldeia mais florida, mais bonita, onde melhor se comia – sim, porque isto também há coisas boas na província e o que é bom é para se ver... Vão é gozar com a vossa prima, porque o respeitinho também é bom e toda a gente gosta. E precisa.

O fogo atiça o fogo. O fogo põe-nos todos a arder cá por dentro. É voraz e excita-nos. Deslumbra-nos. Ocupa-nos, completamente. É adrenalina da pura e dura. Senti-o na pele, constrangida.
Por isso, deixei de ver reportagens na televisão e vídeos alusivos aos fogos, e as imagens que então recolhi com o meu TM ficaram guardadas no meu arquivo, como registo, apenas, do que por aqui passou. Não quis dar mais alimento a esta piromania doentia em que os meios de comunicação de massas, Internet e redes sociais incluídas, alinharam, irresponsavelmente. Indecentemente.

(Contra o fogo, cal e verde – podia ser o título deste longo P.S.)

No final deste mesmo Agosto, quando regressava a casa depois de um festival de contos em que participei, em Beja – vinha esgotada, sentindo-me um cartucho de pólvora seca –, uma chuva sólida abateu-se sobre o nosso Lugar. Nunca tinha presenciado uma coisa assim... A meio duma manhã de Verão caíram dos céus pedras de granizo do tamanho de cubos de gelo, daqueles que costumamos pôr no licor Beirão. Julguei que era o fim do mundo e que era melhor ficar a assistir à tempestade, já que seria, muito provavelmente, a última coisa que veria nesta vida. 

Assisti, assombrada. Com a pele toda arrepiada. 
E, no final das contas, eu resisti, o adolescente abacateiro das traseiras resistiu, as miniaturas de tomates que pendem da nossa horta resistiram, as azeitonas verdes agarraram-se como piolhos às robustas ramagens das oliveiras do nosso quintal. Resistimos todos. Pronto, era só água.

Depois de um Verão escaldante que nos desconcertou a todos, aproximava-se um Outono estranho, enigmático, imprevisível. Disse, então, num texto qualquer que escrevi, «Não temo as chuvas. Reconstruiremos. Teremos a humildade de voltar a fazer.»

E a chuva veio. Líquida, esgueirou-se por todas as fendas e refegos da terra, acordando, refrescando, alimentando. Houve derrocadas, também. E arrastamento de terras e lixo para os rios e mar. Como acontece sempre que chove muito depois de uma queimada extensa e já não temos árvores nem matos para deterem a água e os nutrientes. Perdemos solo, claro. Mas, a natureza recompôs-se. Recompôs-nos a todos, acho.

É engraçado poder fazer esta deambulação retrospectiva a propósito do título desta publicação resgatada – O Lugar onde vivo… Todos os dias descubro pequenas primaveras por todo o lado, renascimentos… A Ordem convivendo, tranquilamente, com o Caos. Sucedendo-lhe, respeitosamente. E, assim, sucessivamente.
No final de Novembro de 2017, o ano em que aconteceram os terríveis incêndios, escrevia para os meus amigos do Facebook:

Os dióspiros estão a chegar ao fim, depois de uma época de abundante criação. Mesmo despida, quase nua, a nossa árvore continua a dar. Até ao último fôlego.
Eu não sabia que um diospireiro nos podia presentear com tanta fruta – da boa – e, ao mesmo tempo, com beringelas, marmelada, couves, batatas doces, aguardente…
Mas fiquem sabendo que pode.
A generosidade do nosso diospireiro em fruta doce este ano foi tal, que a tivemos de partilhar com a vizinhança mais próxima, que, por sua vez, nos devolveu os cestos e os «tupperwares» cheios de belas surpresas. Comestíveis, ainda por cima.
Não sei se foi o Verão que se demorou, se foi o Outono que se atrasou.
Mas, vim aqui só para vos dizer que, por estas bandas, depois da chuvinha de há dias, está tudo mesmo lindo.
O Zorba dorme encostado às minhas pernas, a fazer o ioga radical dos gatos (depois de nos ter lambido todos os pratos por lavar) e as brasas à minha frente estão – olha! – da cor dos diospiros; da cor ainda quente do Outono.
Que árvore boa, esta.

No Lugar onde vivo, há lugar para tudo.

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