Era
uma vez uma maçã. Larga de ancas e verde, daquelas de qualidade, das reinetas.
E, como boa reineta que era, esta maçã tinha um píncaro muito bonito e
trabalhado. Estilizado e perfeitamente centrado, fazia lembrar uma coroa, como
se, afinal, em vez de maçã, ela fosse uma romã, ou a orgulhosa neta de um rei –
«Rei-Neta!»
Para
além de todas estas qualidades, esta maçã era biológica, alimentando-se desde
pequena, quero dizer, desde semente, apenas de nutrientes orgânicos, sem
corantes nem conservantes; sequer fertilizantes – bem, só dos naturais:
excrementos de animais herbívoros, restos de vegetais, cadáveres de ervas e húmus,
daquele bem escuro, aveludado e perfumado. Como se vê, uma dieta de luxo, digna
de reis, chanceleres e ministros. Ou das suas respectivas netas.
Até
que, certa tarde, estava a Reineta repimpada em cima de um tronco – de
macieira, creio – quando foi arrebanhada por uma mão enorme, nodosa, repleta de
calos e rematada por longas unhas, duras e negras. Era a mão de uma mulher –
uma mulher do campo, naturalmente, também sem corantes nem conservantes. A
mulher enfiou a maçã no bolso e regressou ao seu palácio, porque o rei, seu
marido, estava à sua espera para cear. Cabrito, naturalmente. Biológico,
evidentemente. Porque isto aconteceu tudo há muito tempo e em meio rural. Antes
da revolução industrial. Antes da invenção dos aviários e do glifosato.
A
maçã reineta, essa, que contava com a colheita lá para Setembro e ainda só se
estava no princípio do Verão, foi apanhada de surpresa e com o bloqueio
criativo que o susto lhe causou, não conseguiu mexer-se. Nada ousou fazer e
aguentou-se como pôde, desgraçada, dentro daquela algibeira, apertada, abafada,
bafienta. Foi a viagem inteira amordaçada, com a cara esborrachada contra um lenço
de renda, usado, a cheirar intensamente a naftalina. Para uma maçã biológica, aquela
foi uma viagem pavorosa, a pior da sua vida inteira, embora curta, de reineta.
Quando
chegou a casa da mulher, ao palácio, a maçã não estava feliz. Apesar de um
pouco intoxicada, ainda se sentia, porém, relativamente fresca. Mas, durante a
ceia do Rei e de sua mulher, a disposição da pobre agravou-se. Habituada a
comer apenas minerais, azotos e carbonos, teve de tapar a boca com a mão para
não vomitar com o cheiro do estufado – de cabrito ou de leitão, sobre isso já
perdi a certeza.
De
madrugada, estava a maçã quase a dormir, esquecida da sua precária situação,
quando apareceu de novo aquela mão. É que a mulher tinha-se esgueirado do leito
real, de mansinho e em trajes menores, enfiado na cozinha e, à luz das velas, arrancado
a reineta da cesta onde repousava, escarrapachando-a em cima duma mesa de pedra,
fria e asséptica. «Mas… As maças não precisam de ir ao ginecologista!» – gritou
em pensamento a pequena maçã. E enrubesceu, qual Fuji ou Royal Gala.
A
sombra da rainha projectada sobre os azulejos da cozinha, distorcida, enorme e
cornuda, apavorou a fruta menina, que só não comeu as unhas, porque as não
tinha. Com uma expressão malévola na boca e na mão direita o cabo de marfim de uma
faca de prata, a mulher preparava-se para esventrar a maçã, ainda tão jovem e
suculenta, pobrezinha. Mas, nesse momento, a maçã começou a cantar. Assim, do
nada, desencantou uma modinha antiga do seu reportório tradicional e puxou pela
goela com toda a determinação, apesar do adiantado da hora, a ver se ganhava
tempo, ou se o fazia perder à outra.
«Não
sejas ridícula!» – ralhou a mulher que, por azar, era Rainha, embora só o fosse
por afinidade. E prosseguiu naquele despautério: «Uma maçã que canta, mesmo
neste reino mágico em que vivemos, e ainda que sem grande afinação, só pode ser
coisa do diabo. E o diabo e eu, informo-te, minha verdinha, estamos arranjados
– para sempre!... Ha-ha-ha-ha-ha!...»
Pronto,
estava tudo explicado, pensou a maçã, tinha-lhe saído na rifa a Rainha Má.
Podia ter sido o Unicórnio Dourado, os Três Cabritinhos ou o Chapeleiro Maluco,
mas não… Tinha tirado a bolinha preta: uma mulher má, rainha por afinidade, e
quase de certeza, bruxa de profissão. Talvez sem diploma, mas uma bruxa do
piorio, sem sombra de dúvida.
Não
obstante – e à maçã ainda lhe restavam forças para reconhecer – a mulher era
deveras graciosa. Naturalmente, por causa dos cremes de fruta natural – e
propriedades anti-oxidantes respectivas – com que besuntava a pele do rosto e
do pescoço, pelo menos desde que havia chegado aos 30 anos, mais coisa menos
coisa. Porque até as rainhas más, em certas matérias, e por mais arrogantes que
sejam, acabam por ser sensíveis aos conselhos das vizinhas. A bruxa tratava-se
como uma rainha; sobre isso a maçã não tinha dúvidas. Aliás, nem o espelho as
tinha e, por isso, lho dizia, com voz de locutor de rádio, todas as manhãs,
desde há quase uma centena de anos.
Estava
a suculenta maçã nestes inocentes pensamentos quando a bruxa da Rainha, sem dó
nem piedade, a tomou nas suas espadaúdas mãos. De tão sensível que era, a
reineta, de verde passou a roxa. A mulher ergueu a fruta no ar, para a ver
melhor e depois…
«O
quê?...» A maçã não compreendeu logo o que estava a acontecer, porque as
palavras que a Rainha má começou a debitar tinham uma sintaxe insólita e o
sotaque aparentava-se com o norueguês. Abanou a coroa, apurou os tímpanos e eis
o que escutou: «Abadacabra! Abadacabrapreta! Levante-se o véu. Relinche a mula.
Morram as belas que não eu!»
De
seguida, e aproveitando a apreensão da maçã, a maléfica mulher perfurou a sua
casca de reineta, cuidadosamente, e extraiu, com as garras de rainha bruxa, a
larva que vivia dentro da fruta. Fê-lo com uma perícia cirúrgica, apenas
explicável pela vocação; ninguém aprende tal coisa na escola. Inchada de gula,
riu-se e, sem qualquer emoção, sequer consideração, tragou o verme – que não
teve tempo para dizer ai. Nem ui! Consta que só emitiu um tímido «Wow!...».
Nesta
altura, a maçã, que ainda estava viva, quase desfaleceu de desgosto – sim, por
lhe roubarem o único bicho que conheceu na sua curta vida sazonal. E também por
haver gente tão fria e cruel no mundo.
A
Rainha má ou, se quiserem, a bruxa simplesmente, espreitou para dentro da
barriga da maçã e verificou que a caverna que a larva havia escavado durante
aquela estação servia na perfeição os seus malvados propósitos. Então, soltou 3
gargalhadas estridentes e injectou no vazio que o infeliz, e agora defunto,
bicharoco deixara 7ml de veneno – uma mistura de raízes de cicuta e bagas de
beladona da mais pura e virgem cultura biológica. Seguidamente, e sem qualquer
sombra de remorso, retocou a superfície da casca, puxou-lhe o lustro com a
manga da camisa de dormir e enfiou-a no cestinho. Cobriu o seu belo e maligno
corpo com um casaco de pele de fabrico nacional – lebres do campo ribatejano entretecidas
com fios de seda natural, sem viscose – e subiu a montanha, ufana e
esperançosa, sem nunca se desviar do caminho, tal como a sua mãe lhe
recomendara em tempos idos.
O
trilho seguido levá-la-ia, a ela, Rainha má disfarçada de boa, e à Maçã
reineta, que apesar da sua cândida índole, se encontrava agora enraivecida pelas
suas próprias toxinas naturais, (e também pelas saudades do seu verme),
levá-las-ia, dizia, à casa dos sete mineiros. (É costume contar-se que todos os
sete encantadores mineiros eram anões, mas tal qualidade poderá muito bem ter
sido inventada por algum etnólogo ou romancista complexado. Deixo este detalhe,
portanto, à vossa consideração.)
Quando
chegou ao humilde casebre no topo da montanha, a mulher pegou na gelada
mãozinha de ferro – o puxador da porta – e fez ecoar pela floresta três batidas
secas mais uma repenicada no fim, como era hábito fazer o pessoal da casa. Mas,
sarilho dos antigos, em vez dos sete homens, ou de qualquer um dos sete,
assomou à janela uma linda rapariga, branca como a neve.
Então
a maçã, verde-pálida de terror, benzeu-se: «Ai, valha-me Nossa Senhora!... Deus
me perdoe pela história em que me vão meter!...». Dito isto, tentou atirar-se
do penhasco abaixo. Mas não conseguiu.
Maria, algures entre 2014 e o dia de hoje, 9 de Abril de
2019
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