«E como se chama ela? Tem nome?...», perguntei eu,
distraidamente.
«Eu, chamo-lhe Maria…», respondeu-me tímida, quase envergonhada, a Mariana, que já é uma senhora madura, a caminho dos 80, e vive com o marido no número 1 da minha aldeia, lá ao cimo da comprida rua principal, mesmo antes da paragem da camioneta; na casa onde, até ao ano passado, havia um letreiro a informar em letras garrafais «Vende-se vinho». Agora já não. Mas, de quando em vez, ainda nos oferecem uma garrafinha de aguardente, da deles.
«Eu, chamo-lhe Maria…», respondeu-me tímida, quase envergonhada, a Mariana, que já é uma senhora madura, a caminho dos 80, e vive com o marido no número 1 da minha aldeia, lá ao cimo da comprida rua principal, mesmo antes da paragem da camioneta; na casa onde, até ao ano passado, havia um letreiro a informar em letras garrafais «Vende-se vinho». Agora já não. Mas, de quando em vez, ainda nos oferecem uma garrafinha de aguardente, da deles.
«Desculpe lá…», rematou ela a frase, sinceramente
convencida de que havia cometido uma gaffe, senão um verdadeiro abuso, ao
lembrar-se de dar a uma gata, vadia ainda por cima, nome de mulher, que não só
é o de Nossa Senhora, como também o meu, a sua nova vizinha. Expliquei-lhe que
não me ofendia nada, até gostava. Já não lhe disse, mas pensei cá com as minhas
entranhas, ou por outra, senti de forma privada um certo orgulho, confesso. Ser
assemelhada a uma gata daquelas, bonita, independente, ágil e tão gentil,
punha-me nas antípodas do lugar para onde me empurravam quando, em criança,
faziam trocadilhos idiotas em que o meu nome rimava com a palavra «bolacha» ou,
nos piores dias, com o «bacalhau» à portuguesa. Sou da geração das Sandras,
Carlas, Patrícias e Vanessas; nas classes altas encontravam-se algumas
Beatrizes, Carolinas e Leonores, mas Marias, só as de Lurdes e da Conceição. Eu
cá, sempre gostei do meu nome, mas não deixava de ser estranho, quase bizarro,
que até ao final da adolescência, uma rapariga sui generis como eu, calças
de ganga remendadas a fugir à polícia, caixa-de-óculos e mala da tropa à
tiracolo, com tendência para a intelectualidade e para os activismos em geral,
tivesse como homónimas apenas as criadas de servir – as únicas a quem, na
Lisboa dos anos 70 e 80, continuavam a chamar simplesmente Maria, sem mais
títulos, segundos nomes ou sobrenomes. «Maria quê?», estavam-me sempre a
perguntar. «Não, é só Maria, o resto já é apelido». Nos meus tempos de
juventude, Maria não era um nome para dizer ou recitar, era um nome para chamar
e mandar fazer. Um nome com as costas largas e nada dado a diminutivos
carinhosos, mas muito apelativo em matéria de alcunhas.
Desde há uns anos, entretanto, o substantivo pessoal «Maria»
recuperou a graça e a elegância e, segundo parece, até calhou em moda;
banalização esta que, verdade seja dita, não me foi particularmente aprazível.
Toda a gente sabe que as Marias são vaidosas e eu, nesse particular, não sou
excepção. O que é que querem?... Afeiçoei-me ao hábito de ser a única Maria
Simplesmente das redondezas. Por outro lado, não sou, nunca fui, uma Maria vai
com as outras e, por isso, dá-me jeito que as outras não sejam Marias como eu;
caso contrário, a confusão instala-se.
Mas, ter o mesmo nome de uma gata vadia que acabava de
parir, sozinha, quatro gatos grandes e sãos, isso sim, era edificante, no
mínimo muito interessante. A minha vizinha Mariana ainda tentou, uns dias
depois e em cima do joelho, arranjar nome alternativo para a mãe gata – Fofinha
ou uma coisa horripilante do género, mas eu impedi-a de o fazer,
irrevogavelmente. O nome Maria tinha a dignidade que aquela gata merecia.
Dignidade de pessoa. Dignidade de fêmea antiga – eu diria que ao nível de uma
Eva. Maria conseguia traduzir, melhor do que Tareco ou Boneca, a dignidade que
todos os felinos exibem, independentemente do tamanho, espécie, tempo ou
geografia e que, até, às vezes, nos ensinam. Sem explicarem, sem falarem; só
por existirem – por se esticarem, flectirem, impulsionarem, relaxarem e
correrem como só eles sabem fazer. No que dependesse de mim, Maria manter-se-ia
o seu nome.
Ter o mesmo nome que eu, mesmo que ela disso não soubesse
nem a tal atribuísse qualquer importância ou significado, foi uma maneira
daquela gata me agradecer. Encarei esta mágica coincidência como uma forma de secreto
reconhecimento.
«Humm… Então, chamas-te Maria, sua vadia… Muito prazer.» Sorri-me
toda, de alto a baixo e baixei-me para lhe dar mais umas festas no pelo macio e
tricolor. Ela ronronou-me e eu achei que estávamos entendidas. Os animais não
nos deixam falar e isso, às vezes, sabe mesmo bem. Às vezes, é mesmo do que
precisamos.
Regressava a casa de furgoneta, a meio da tarde, quando conheci
a gata Maria. Foi em Março, antes da chegada oficial da Primavera, mais
precisamente, no dia internacional da mulher. Já íamos a meio da tarde e
ninguém me havia felicitado ainda, nem oferecido um copo, nem dedicado sábias banalidades escritas num papelinho
ondulado. Para assinalar esta data, em certos anos, o meu pai chegou a
presentear-nos, a mim, à minha mãe e irmãs, com flores. Mas, este ano, foi esta
a prenda que eu recebi no dia da mulher – uma gata a miar, alto, alto, alto!,
sentada em cima da fonte partida, logo a seguir à paragem da camioneta. Alto! Abrandei,
intrigada, e encostei à berma, 5 ou 6 metros à frente. Fui ter com a gata e ela
caminhou, dengosa, na minha direcção. Miava muito, enroscava-se nas minhas
pernas, deitava-se de barriga para cima no meio da estrada. Entregava-se toda. Pedia-me
festas. Inspeccionei-a brevemente para me certificar de que não estava ferida.
Aparentemente, nada. Porém, parecia tão dorida, tão carente. Interroguei-me se
estaria com o cio, para se expor daquela maneira, mas todos os demais sinais
não condiziam. Além disso, não sou gato, nem homem nem leão – não vislumbrei
qual fosse para ela o interesse em interagir com uma fêmea da minha espécie, a
quem nunca tinha visto mais gorda, de quem nunca havia recebido comida nem
bebida nem abrigo nem um mimo, sequer. Sendo uma gata vadia, livre, maior e
vacinada, podia escolher estar com quem quisesse, onde quisesse, a fazer o que
quisesse. Mas, não, escolheu-me a mim, pôs-se no meio da estrada, interpelou-me
directamente e impediu-me de prosseguir o meu caminho. Uma abordagem daquelas
não fazia qualquer sentido; mas também não a podia ignorar. Olhei-a melhor e
identifiquei uma grande pança encaixada entre as suas 4 patas pintalgadas de
amarelo, branco e preto. «Estás grávida, gatita?» Miou-me que sim. «O que é que
tu achas?...», acrescentou silenciosa, quase irónica, mas sempre amável. «Então,
está bem. Vou ver o que posso fazer.» Pus-me a pensar, mas ela, claro, agiu.
Aproximou-se da minha furgoneta. Rondou-a. «Se calhar tens frio…» Dei a volta
para lhe abrir a porta lateral, de correr, a ver se era de abrigo que ela
precisava, mas, julgando que eu me estava a afastar, já a gata acrobata, com
uma elegância e eficiência improváveis dado o seu estado de avançada prenhez, havia
pulado para cima do alto capot da carrinha, contornado o retrovisor,
atravessado a janela do condutor e descido para o banco da frente que ainda
devia guardar o calor do meu corpo. «Sabes o que queres, não há dúvida. Eu é
que estou às aranhas…»
Enquanto a gata vadia
vadiava languidamente pelas alcatifas, estofos e mantinhas da nossa velha e espaçosa
Caravela, peguei no telefone e pedi ajuda. O meu homem, de caminho não sei para
onde, montado na sua motoreta, trouxe-nos paté de salmão num saquinho. «Nada
mau, hein, gatinha?...» Não me respondeu, a malcriada, mas agachada junto ao
acelerador, papou tudo num nanosegundo. Oferecia-me a barriga para eu a
acariciar. Aceitava as nossas festas como se nos conhecesse desde o berço. E
agora? Estômago composto, devolveria a criatura ao frio da rua, entregando-a à
sua sorte? Ou deixava-a parir dentro da minha carrinha? Nós, as pessoas da
cidade, somos tão estúpidas, tão ignorantes. Pronto, mais um telefonema
(benditos sejam os malditos dos telemóveis…) A minha vizinha de baixo, de sua
graça Isabel, apoiou-me incondicionalmente. «Ainda bem que paraste. Ela já aí
está há umas horas. É a gata a quem a Mariana dá de comer. Mas vive na rua.» A
casa da Mariana está vazia há já uns meses. Foram a Lisboa, ela e o marido,
para consultarem os médicos (prática costumeira entre os habitantes aqui do
Lugar), a coisa complicou-se e ficaram por lá. «Não sei quando regressarão… A
bicha deve estar com fome. E dores. É capaz de estar para parir… E as noites
estão tão frias…» A Isabel prometeu que me levaria, daí a um bocado, uma caixa,
mantas e comida, para montarmos um ninho para a gata. «Boa ideia!»,
respondi-lhe, toda animada.
Os 20 minutos em que
fiquei a sós com esta extraordinária criatura, dentro da furgoneta, parada na
berma da estrada, com todos os meus afazeres congelados, foram gastos em festas
e em diálogos infantis. E, também tive tempo para discorrer alguns pensamentos,
dos reconfortantes. É que uns dias antes deste encontro, tínhamos esterilizado
a nossa gata pequena, que estava agora em casa, a recuperar da operação. É uma decisão
difícil, castrar os animais que temos à nossa guarda. Decidir sobre o corpo do
outro, sobre a liberdade do outro, sobre a integridade do outro. Poderão
dizer-me «É só um gato.», mas isso nada legitima, porque, no final das contas,
eu sou só uma pessoa. Que direito tenho de andar a cortar bocados aos outros? A
minha mãe nem as orelhas nos furou, quando éramos pequenas, para não
interferir. «E agora andam todas cheias de buracos!...», queixava-se ela, algo
desiludida. É claro que nenhuma de nós, as cinco filhas da minha mãe, conseguimos
chegar aos 30 anos intactas. Estou a falar de furos nas orelhas, tatuagens e piercings,
claro. E é evidente que a minha mãe, apesar de todos estes pudores, interferiu
significativamente – aliás, irremediavelmente –, nas nossas vidas. Educou-nos,
orientou-nos, decidiu por nós – a maioria das vezes respeitosamente, aqui e ali
impiedosamente, mas sempre de forma indelével. Não há como fugir à
responsabilidade. A nossa existência, os nossos actos e palavras e pensamentos têm
impacto sobre os outros. Tatuamo-nos uns aos outros, na verdade. Fatiamos
cérebros, ferimos egos e vontades, furamos corações. Lavamos com detergente
altamente corrosivo corpos que, afinal, não estavam sujos e contaminamos com os
nossos medos, vícios e culpas mentes por estrear. Impedimos de chorar uns; provocamos
o choro convulso a outros. Salvamos este; esmagamos aquele, ainda que seja só
uma colónia de formigas, ou o pé inchado daquela velhinha sentada na gare do
metropolitano. Por isso, precisamos tanto do perdão que a religião nos pode
dar. Às vezes, até pedimos desculpa, mas interferimos, inevitavelmente – não há volta a dar. E, quando estamos numa
posição de poder face a seres mais frágeis e dependentes, como por exemplo,
perante um filho pequeno ou um bicho que se adoptou e aos quais temos de impor
as regras da casa, da família, ou da própria relação – cujos parâmetros, aliás,
nos arrogamos o direito primário de estipular –, nestes casos, a nossa responsabilidade
redobra. Disso devemos ter consciência, embora não possamos evitar as inevitáveis
«interferências» sobre a vida dos outros nem os insondáveis efeitos do nosso
«impacto» sobre o planeta.
Enfim, medidos os prejuízos
e os benefícios, à luz do que conseguimos, aqui e agora, enxergar, decidimos invalidar
a possibilidade da nossa Babouska ter descendência. Em troca desse sacrifício,
demos-lhe a possibilidade de andar na rua, de entrar e sair quando quiser. E, como
consolação, pode sempre contar com a companhia (e a amizade) do outro gato que
cá temos, e também do cão. Não lhe cortamos as unhas para poder subir às
árvores e defender-se de canídeos malfeitores. Também não a proibimos de caçar
ratos nem (ai…) passarinhos. Porém, e apesar de todas estas racionalizações, na
semana em que conheci a gata Maria andava cheia de complexos de culpa a
ensombrarem-me os dias e a sobressaltarem-me as noites. A esterilização, no
caso das fêmeas, é uma intervenção particularmente invasiva, e a Babouska,
durante os primeiros dias de recobro, tinha mudado do dia para a noite. De gata-macaca-lémur,
atrevida e altamente enérgica, tinha passado a um novelo fechado sobre si
mesmo. Vestidinha com um babygrow à Jane Fonda (era isso ou, então, as
ligaduras mais o funil…) caminhava pela casa devagar, às vezes às arrecuas, sem
comer nem beber; o dia todo a dormir. Sem as suas nocturnas proezas sobre as
traves do tecto nem as habituais emboscadas por detrás dos cortinados do
corredor, a nossa casa estava mais triste e, nós, preocupados.
Dentro da furgoneta, massajando a barriga da gata Maria pensava
na Babouska e nas maroscas que teria de inventar, quando chegasse a casa, para
a pôr a comer. Mas, ao mesmo tempo, estava contente pela oportunidade daquele
inusitado convívio com uma gata prestes a parir os gatitos que a Babouska nunca
haveria de ter. Neste planeta, uns dão para os outros, e a cada um o seu papel.
Dar, é só o que podemos fazer.
«Aí vem a Isabel!...»
Mais miados e festas na barriga. «Já viste o tamanho destes
mamilos?... Deve estar mesmo para parir.» Montámos-lhe o ninho no alpendre da
Mariana, ao cimo das escadas que levam à porta de casa. Servimos-lhe o jantar
nuns tarecos que para lá estavam e deixámo-nos estar ali, as duas mulheres, a
olhar e a conversar, até que se fez noite. A gata continuava a miar muito, mas
afeiçoou-se ao abrigo que preparámos. A noite avizinhava-se fria. Será que ela
daria conta do recado? Fizemos contas às luas e a Nova só passaria a Crescente
daí a 3 ou 4 dias. «Pode ser que não seja hoje ainda. Mas está com uma barriga
tão grande…»
Acocorada ao lado da porta da Mariana, atendi o telefone. Notícias
tristes me chegavam do outro lado da linha, naquele final de dia, às quais
respondi com a esperança que aquela cena, tão bela e surpreendente, me estava a
inspirar. Nesse momento, a gata Maria abandonou o conforto do ninho, caminhou
na minha direcção, subiu-me para as coxas e escondeu-se, colada à minha
cintura, dentro da minha gabardina de lã. Tínhamos feito uma nova amiga. Eu e a
Isabel só conseguíamos sorrir uma para a outra, embora já quase não nos víssemos.
Desliguei o telefone.
«Vamos embora, antes que os javalis apareçam por aí. Agora,
é com ela. Nós já fizemos o nosso trabalho.» Concordei e levantei-me. Pousei a
gata Maria na caixa, sobre a almofada, e aconcheguei-a com a mantinha verde
alface que costuma aquecer as pernas enferrujadas da mãe da Isabel.
Vários dias e várias noites passaram sem que os pequenos
nascessem. Fomo-nos revezando nos cuidados básicos à gata Maria. Pelo sim, pelo
não, deixávamos-lhe o portão da casa da Mariana entreaberto para que ela pudesse
dar as suas escapadelas, sem ter de saltar o gradeamento e, assim, fazer
esforços inadequados ao seu estado. Provavelmente, cuidados tontos, próprios de
fêmeas humanas, mas o que se há-de fazer… A barriga da gata crescia a olhos
vistos e parecia querer explodir a qualquer momento.
Entretanto, a Mariana regressou a casa e, no dia seguinte,
no dia em que a lua Nova dava lugar à Crescente, ligou-nos a avisar que a gata
estava a parir. «Já cá estão fora dois, pretos.» Foi a meio da tarde, o parto,
e nós tivemos o privilégio de podermos assistir – eu e a Isabel na varanda,
debaixo do alpendre; a Mariana à janela. Assim que chegámos, a gata miou-nos
como habitualmente. Ronronou quando a acariciámos e expôs-nos a sua barriga,
ainda enorme. Embrulhadas no seu corpo tricolor estavam três crias – uma preta
da cabeça aos pés, outra negra com o focinho e as patas brancas e uma, acabada
de nascer, amarela. Grandes e peludinhas, já, mas com os olhos fechados, claro.
A manta verde alface da mãe da Isabel estava manchada de sangue. Vermelho como
o nosso.
«Já tinha assistido ao nascimento de gatinhos, Mariana?» Ela
abanou a cabeça. «Eu, também não». A Isabel igualmente. Era a nossa primeira
vez. Três mulheres de três gerações diferentes assistiam ao momento mágico e
sagrado do nascimento. «Sempre achei que ela iria procurar um buraco para os
ter. É assim que elas fazem. Para protegerem os filhos. Para não os roubarem.»
Pois é, mas a gata Maria escolheu ter os filhos à porta da Mariana, à nossa
frente. Não me lembraria de melhor presente para nos oferecer às três.
Confirmava-se, assim, a nossa amizade.
«Espera lá!...» O gatito amarelo parecia estar entalado
debaixo do corpo da mãe e a Isabel tentou acomodá-lo melhor. A gata autorizou.
E, para nossa surpresa, a criatura ainda estava com metade do corpo dentro da
mãe. Com os dentes, a gata Maria puxou-o cá para fora. Lambeu-o todo e comeu a
placenta. A seguir, deitou-se de lado a descansar.
«Deve estar estoirada, pobrezinha…» Durante um bom bocado, discutimos
entre as três, baixinho, para não sobressaltar a parturiente, se a ninhada
estaria completa ou não. «Ah, isto ainda vai continuar… Eles não nascem todos
duma assentada…», lembrava a Isabel, ao que a Mariana acrescentava: «Acho
pouco, três. Com uma barriga tão grande…» Só eu entendia que a coisa tinha
ficado por ali. Três é a conta que Deus fez. A barriga era grande, sim senhora,
mas os bichinhos eram enormes – eu estava à espera de um tamanho mais parecido
com o dos ratos ao nascerem (cor-de-rosa, blerrrque, com o coração a
ver-se à transparência, blerrrque, blerrrque…) e aqueles três, quase
pareciam cachorros, com as orelhas coladas ao crânio e um focinho perfeitamente
definido. «São só três, mas são grandes. E ela já se pôs a descansar; é porque
o trabalho está feito. Além disso, já expeliu e papou a placenta onde eles
estavam.» A Isabel ensinou-me, então, que cada cria pode vir dentro da sua
própria placenta e, portanto, nada estava ainda decidido. Blá, blá, blá
de mulheres tagarelas e encantadas, enquanto a gata dormia e a noite descia.
«Até amanhã, gata valente.» E regressámos cada uma a sua casa, com o sorriso do
costume na boca. De orelha a orelha.
No dia seguinte, logo de manhãzinha, algo ansiosa, fui
visitar a gata Maria mais os seus três filhotes. A ver se tinham passado bem a
noite; se a manta verde alface lhes tinha dispensado o calor suficiente. E
também para dar um reforço alimentar à jovem mãe.
A família estava toda embrulhada num novelo, amarelo, branco
e preto; o dia soalheiro e o ambiente muito tranquilo. O rosa pálido das flores
novas da macieira a condizer com o verde alface da cama dos gatos. Estavam
todos a mamar. Controlei-me para não tocar nos recém-nascidos e vinguei-me na
gata. Fiz-lhe festas até me consolar. Quando me preparava para me vir embora, cá
à minha vida, ao cingir a manta aos corpos dos gatitos, reparei nuns pés que
assomavam por baixo da caixa. «Um dos bichos está com as patas entaladas…»,
pensei, e levantei a manta para tentar resolver a situação. E não é que, no
chão frio da varanda, fora da cama, estava mais uma cria!... Tricolor como a mãe.
«Afinal, são quatro!», gritei. A Mariana veio à janela, curiosa, e o meu homem
pôs-se a ralhar: «Não lhe toques! Não lhe mexas! Olha que a mãe depois o
rejeita. Deixa. Deixa.» Levantei os braços como se me estivessem a apontar uma
arma e congelei. A pobre da quarta criatura devia ter estado a noite toda ali,
sozinha e cega, colada ao chão, debaixo da dobra do cobertor. Entretanto, a
malhadinha começou a miar, quer dizer, a emitir uns sons, uns grunhidos de
ratinho pequeno. A mãe gata levantou o pescoço, abriu muito os seus olhos
verdes e redondos, largou os três filhotes, saiu da caixa, agarrou na
tresmalhada pelo cachaço e trouxe-a para debaixo da sua asa. A pequena
agarrou-se à mama da mãe e, nesse momento, nós, os humanos que ali estávamos,
quase nos babámos a assistir ao reencontro da família.
«Chuinf, chuinf, chuinf…», faziam os quatro filhotes,
enquanto sugavam o leite morno do corpo da gata Maria, que se estendia e
ajeitava. E a outra Maria, a que não é vadia, sorria. Não conseguia parar de
sorrir.
Maria, entre 8 de Março e 4 de Abril de 2019
Post-Scriptum
Entretanto, a barriga da Babouska cicatrizou em tempo record
e ela já regressou às suas rotinas circenses. Neste momento, está a dormir
enroscada no Zorba, o gato mais paciente do mundo, que todos os dias lhe
tolera, qual irmão mais velho, os arremessos violentos e os ataques à traição.
Anteontem, apanhei-a a ronronar, deitada na enxerga do Fausto, encostada à
cauda de um cão 7 ou 8 vezes maior do que ela. Enquanto nós suspiramos de
alívio, por a sentirmos totalmente recuperada, a gata riscada mais macaca do
mundo vai cheirando os 4 cantos do alpendre e, de cima da tangerineira,
espreita os quintais que, logo, logo, vai poder explorar por sua conta e risco.
A Mariana vai regressar em breve a Lisboa, para perto do
hospital e para junto dos filhos. Não sabemos quando voltará, ou se voltará. A
casa ao pé da paragem da camioneta vai ficar vazia outra vez. Os filhotes da
gata, que, entretanto, já abriram os olhos, irão arriscar o pé fora do ninho e
começar a investigar o espaço em volta. Nasceram numa varanda, equivalente a um
1º andar, sem nenhum buraco onde se possam esconder dos cães e dos gatos
grandes que lá aparecem. Em frente à casa passa uma estrada. A mãe gata irá
retomar a caça e as suas demais actividades nocturnas. É natural que, daqui por
uns 4 meses, volte a ficar de esperanças. E as pessoas estão fartas de gatos,
que procriam como gente grande. Normalmente, afogam-nos à nascença. Às vezes,
enterram-nos vivos ou jogam-nos nos contentores do lixo. Assim que possam ser
desmamados – daqui a dois meses ou coisa que o valha – vamos ter de distribuir
os filhotes da gata pelas famílias humanas aqui do Lugar e redondezas.
Para nossa casa só poderemos trazer (mais) um – escolhi o amarelo, que vi nascer.
Apesar de serem todos
adoráveis, praticamente irresistíveis, o que mais gostaríamos de trazer para
viver ao pé de nós era mesmo a gata Maria.
Mas a gata Maria é vadia.
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