Era uma vez um menino que nasceu gente e
morreu gente.
Mas, pelo meio do caminho, aconteceu-lhe um
pequeno desvio. Bem, não sei se foi pequeno, mas que foi desvio, tenho a
certeza, embora desconheça a razão porque estes desvios ou bifurcações ou
acidentes – é como lhes quiserem chamar – ocorrem.
Acredito que um caminho, para ser digno desse
nome, tenha de conter encruzilhadas, pedras, buracos, e até ogres e outras
criaturas matreiras à espreita atrás de uma velha árvore; caso contrário não
seria um caminho que se faz andando com os nossos próprios pés, mas uma via
rápida para veículos motorizados ou, pior ainda, uma auto-estrada, daquelas perfeitamente
sinalizadas e cronometradas, arrogantes e fastidiosas, que nos levam sempre em
linha recta até ao destino programado.
Calculo que a ti, natural do planeta
azul, que caminhas pela vida há mais de 20 anos, já te tenha acontecido algo
semelhante ao que te venho contar – tropeção, despiste ou emboscada, não
importa o nome que lhe tenhas dado. Ora escuta, a ver se não é.
No tempo em que se passa esta história, o
menino de quem nela se fala era magriço, alegre e maroto como todos os meninos
antes de se deixarem confinar pelos regulamentos, medidas e responsabilidades
das pessoas crescidas. A esta altura do campeonato, sabia falar apenas a sua
própria língua, feita de muitos elementos misturados, tudo e mais alguma coisa.
Ar fresco nos pêlos do nariz, cheiro a relva nos joelhos das calças, leite com
chocolate e a palavra ‘Macaca’ ou ‘Amarelo’, por exemplo, podiam ligar-se para
expressar uma única impressão, lugar ou sentimento, tão palpável e compreensível
como um comboio ou a estação onde ele atraca ou o preço do bilhete que se
compra para nele transitar. O sabor do gelado de amora, os cantos da boca
lambuzados de roxo e as grainhas encravadas entre os dentes, tal como o cheiro
das tardes cheias de tempo em que se entretinha sozinho nas traseiras do prédio,
creeech, creeech, a esmagar as folhas secas que as árvores
deitavam fora no Outono, pertenciam, evidentemente, à mesma categoria de
fenómenos. A tacinha chinesa do tio mais novo, com aquela menina despida que lá
ao fundo aparecia, quanto mais se bebia… e depois desaparecia, sempre a sorrir;
esse copinho dourado era tão misterioso quanto a coreografia de sons e
trejeitos que a empregada doméstica fazia com os anéis mais os 2 centímetros de
verniz vermelho multiplicados pelos seus 10 dedos compridos, enquanto engomava
as camisas brancas da gente da casa. O tilintar das pulseiras chocando contra os
botões dos punhos e dos colarinhos, uma e outra vez, e depois a pele áspera das
palmas das mãos raspando o algodão, para o alisar e adormecer… Aqueles sons, aconchegados
pelo cheiro a roupa aquecida dentro das manhãs de Inverno, compunham um tema
musical tão belo e concreto quanto o refrão que os bonecos animados cantavam
para anunciar a sua chegada sempre que o visitavam na sala de estar, pouco
antes da hora do jantar. Os gambozinos de que os velhos falavam, as faluas, os bichos-de-conta,
as missangas dos colares da irmã, os anjos translúcidos das orações da avó, os
frascos de vidro coloridos que a porteira coleccionava na penumbra do seu
quarto de mulher solteira, mais os faróis das motos e bicicletas que encontrava
arrumados numa caixa à entrada da garagem do senhor Amaro, todas estas
criaturas eram habitantes de um mesmo país, feito de substâncias leves,
luminosas e com cheiro a borracha cor-de-laranja misturada com pó de talco.
Era neste mundo das coisas reais que o menino
habitava, um mundo feito à sua medida e à medida de todas as coisas que nele
coubessem, que eram muitas, para não dizer todas. Embrenhado a explorar,
segundo a segundo, um quotidiano com o tamanho de todo o universo, constelações
e micróbios incluídos, estruturado na multiplicidade e em tão natural relação
entre seres, ideias, épocas e matérias, não lhe restava muito tempo (nem
paciência, diga-se de passagem) para se dedicar a deslindar os conteúdos do
cubo gasto e intrincado de conceitos, preconceitos, juízos e obrigações em que
viviam enfiados os adultos. E, apesar de conhecer já várias centenas de
palavras, não fazia nem ideia do significado mágico que algumas destas tinham para
as pessoas crescidas e da habilidade com que alguns as usavam para definir estranhas
tabelas que acabavam regendo todas as dimensões (que não eram muitas, aliás) das
suas vidas. Para ele, nesta altura, ‘prever’ ou ‘projectar’ não tinham qualquer
importância acrescida em relação à palavra ‘chapéu’, ‘olho’ ou ‘piolho’. Pelo
contrário. O mesmo acontecia com vocábulos como ‘produzir’, ‘fundamentar’, ‘ponderar’,
‘cumprir’, ‘sobreviver’, ‘rentabilizar’ e por aí afora. Berlindes, braço,
borboleta, cotovia, lama, porta-moedas e a própria palavra etecetera-e-tal traduziam
ideias muito mais interessantes do que ‘sucesso’ ou ‘comportamento’ ou, até,
‘personalidade’.
A coisa era simples. ‘Conduzir’ era o que a
sua mãe fazia quando entrava dentro do boguinhas que os levava de férias
para a costa. ‘Aprender’ era aquilo que acontecia na escola, entre os recreios
e o jogo da bola. ‘Comprar’ queria dizer ir com a avó ao mercado aos sábados de
manhã e trazer as algibeiras recheadas de caramelos de nata. ‘Educação’ era
mastigar com a boca fechada e dizer obrigado aos mais velhos. ‘Trabalho’ representava
o sítio para onde os adultos iam depois de acabarem a escola ou de já não os
quererem lá. Para quê perder tempo com coisas tão pouco reais? A morte estava
lá longe e a vida aqui, aqui mesmo, sobre, dentro, a toda a volta de si, à mão
de semear – fácil, concreta e extremamente interessante.
Era Aqui que o menino estava, vivia e
crescia, todos os dias um pedacinho, sem se cansar, sem tentar compreender ou fazer
ou, menos ainda, parecer. Mas, um dia, ainda antes de completar os 10 anos, o
menino apanhou um grande susto. Daqueles mesmo grandes e de que se não está
nada à espera.
Era Verão. De manhã, ainda pela fresca,
quando andava, sozinho, a calcorrear as rochas de uma praia muito comprida à
cata de caranguejos e de mexilhões, o menino tropeçou nos seus próprios pés
(tinha calçadas umas barbatanas de borracha pretas para o caso de precisar de
mergulhar de emergência…) e caiu dentro de um buraco, fundo e húmido. Na queda,
fechou os olhos e ouviu a pele das pernas e das costas a ser rasgada pelas
unhas dos percebes. Partiu dois dentes. Ainda eram de leite, mas dois dentes
são sempre dois dentes… Choramingou, 2 ou 3 lágrimas, esfregou os braços e as
coxas com as mãos e recompôs-se.
«Óh-óh! Ei!!! Aqui! Aquiiiiiiiii!... Aqui…»
Não o escutaram. Por azar, ninguém passava
ali por perto; ficavam todos lá no princípio da praia, ao pé do mastro com a
bóia e a bandeira que, agora, devia estar amarela, talvez vermelha. Esperou.
Choramingou. Resmungou e adormeceu.
Quando despertou, muito dorido, tentou pedir socorro
novamente mas, em vez de palavras, saiu-lhe da boca um grunhido. Indecifrável.
Mesmo para as algas e para as gaivotas, os únicos seres que lhe podiam ter dado
consolo naquele momento.
Muito pequeno, encolhido e trémulo no extremo
daquele buraco onde só chegava uma pontinha de sol, o menino experimentou pela
primeira vez a solidão e sofreu uma transformação muito importante, mas a
princípio quase imperceptível.
Durante a primeira semana tentou, uma e outra
vez, subir na direcção da luz, mas as paredes daquele buraco eram autoritárias
e escorregadias, impossíveis de escalar. Grunhiu horas a fio, para aliviar o
ardor que lhe causava a água salgada nas feridas – a do mar e a que lhe saía
dos olhos. Durante vários dias, aquele choro animalesco que lhe escapava das
goelas abertas foi a única companhia de um menino que, devagarinho, se
metamorfoseava num monstro.
Nascido do susto, o monstro azulava-se, dia
após dia, no contacto com o negro arroxeado da solidão e ia-se refinando em
gestos pavorosos e formas bizarras ditadas pela sobrevivência em tão agrestes
condições.
Quando perdeu de vez a voz, convencendo-se
então de que ninguém viria buscá-lo, o menino-monstro começou a alimentar-se de
burriés crus e a chupar a água guardada dentro das algas, o que lhe foi
deixando um visco verde entre os dentes. As feridas das costas acabaram por
sarar, mas as cicatrizes deram lugar a escamas roxas, como as dos dragões, que
se espalharam pela coluna acima. O cabelo continuou a crescer, empapado pelo
sal e pela humidade da praia, até lhe chegar à cintura.
À noite, quando os pêlos dos seus braços se
eriçavam com o frio, e para não se deixar paralisar pelo medo que lhe
provocavam os roncos de um mar que morava mesmo ali ao lado, o menino-monstro
embalava-se a si próprio com histórias, belas e cruéis, que inventava, fazia e
desfazia, ao sabor das ondas caprichosas que circulavam, agora, dentro do seu corpo,
barriga e cabeça.
A comida era pouca e a luz também. Mas
continuava a haver ar para respirar e o monstro continuou a crescer. Sobretudo
as pernas. Aliás, aconteceu-lhe o mesmo que àquelas plantas que, com a falta de
sol, vão desenvolvendo uns caules muito magrinhos, débeis e descolorados, debatendo-se
angustiosamente para chegar à luz. Só para terem uma ideia, as pernas
cresciam-lhe à razão de cerca de um palmo por estação! A esta velocidade, não
foram precisos muitos anos para que o monstro atingisse a boca do buraco.
Quando a sua cabeça esguedelhada assomou
acima do chão, o monstro teve de fechar os olhos, violentamente ofuscado pela
luz cruel de uma manhã de céu limpo. Foi com alguma dificuldade que saltou para
fora do buraco e caminhou na direcção do mar. Cambaleava. De fraqueza, mas
também pela sua inexperiência no manejo daquelas estranhas andas que agora tinha
por pernas.
À beira-mar, o monstro baixou-se e tentou ver
o seu reflexo numa poça. Não se reconheceu. Não por causa do verde dos dentes
nem pelo ranho que lhe escorria pelo queixo; tão-pouco pelas escamas nas costas
e no pescoço. Mas pelos olhos, que estavam tão baços e tristes. Como podia ter
envelhecido tanto dentro daquele buraco?
Acocorado junto à água, fez uma concha com as
mãos, magras e azuladas, e lavou a cara e os braços o melhor que pôde.
Sentindo-se um pouco reconfortado, deitou-se
de costas na areia, a aquecer-se ao sol como fazem os lagartos. Em poucos
segundos adormeceu, embalado pelo barulho suave das ondas de um mar manso,
daqueles de bandeira verde. Sonhou que era menino outra vez e, naquela mesma
praia, fartou-se de fazer carreirinhas e engoliu uma grande quantidade de pirolitos;
arrotava espuma, engasgava-se, ria-se, e voltava a mergulhar…
Acordou de repente, a coçar a cabeça. Uma
coisa qualquer, muito dura, atingira-o na testa. Pimba! Outra vez. Agora, na
nuca. Levantou o tronco, estremunhado, e reparou que a poucos metros de si
estava uma criança, meio escondida atrás de uma rocha, a rir-se com um ar muito
malandro.
Com um salto, o monstro pôs-se de pé, fez uma
cara feia e grunhiu. A menina desatou a correr e mergulhou por cima de uma
onda, como se fosse um golfinho. Quando voltou a emergir, trazia muitas algas nas
mãos. A pingar água, aproximou-se do monstro e pendurou umas delas, castanhas e
escorridas, na cabeça, para o imitar. O monstro estava perplexo, mas não
despregava os olhos da menina, que logo aproveitou para lhe fazer uns grandes
bigodes com as algas verdes que lhe sobravam. E depois, desatou-se a rir.
O monstro não resistiu e desmanchou-se,
também. Mas, com a mudança de idade, as suas gargalhadas tinham-se alterado e
agora assemelhavam-se ao som de qualquer coisa entre um trombone e um
aspirador. Ao ouvirem aquele riso, monstro e menina riram-se ainda mais até que
caíram no chão cansados, agarrados às respectivas barrigas.
De repente, calaram-se, e a menina ficou a
olhar para o monstro, a sorrir.
(Há quantos anos não olhavam para ele?...)
Entretanto, a menina levantou-se e pegou num
pau. Começou a riscar letras e estrelas na areia, correndo de cá para lá,
entretida. E nessa tarefa ficou ainda durante um bom bocado. Quando se fartou,
atirou o pau para dentro de água e chamou o monstro: «Anda!»
O outro levantou-se e, lado a lado, monstro e
menina, passearam várias horas pela praia, até o mais velho se habituar às suas
novas pernas.
A dada altura, passaram ao lado de um buraco
enorme, escondido entre as rochas.
A menina parou e ficou a olhar lá para
dentro. Assobiou e depois esperou que o som retornasse. No fundo do buraco
avistaram um par de barbatanas velhas. Virou-se para o monstro com um ar muito
sério e exclamou: «Imagina se eu tivesse caído aqui dentro!?...». Fez-se um
longo silêncio e o monstro, que não falava desde há tanto tempo, agarrou na mão
da menina e disse-lhe com a sua voz de garrafão: «Eu teria ido buscar-te.»
E ficaram a olhar-se nos olhos durante um
longo pedaço.
A menina abanou a cabeça como se tivesse
acabado de ter uma ideia genial: «Espera aqui!». Numa grande azáfama, conseguiu
reunir um monte de pedras e pediu ao monstro para a ajudar a fazer um murete em
redor do buraco. Depois, fez umas danças de roda esquisitas e cantou umas
palavras mágicas, próprias para afastar os perigos. O monstro, esse, como já
não podia fazer feitiços daqueles, mas que, em compensação, já sabia escrever, puxou
do indicador e desenhou na areia, em letras de imprensa: «PERIGOSO».
Depois, continuaram a andar por cima das
rochas.
«Sabes, eu adoro esta praia…», confessou a
menina.
«Eu também.», concordou o monstro, muito envergonhado
por andar a ter conversas sérias com uma menina tão pequena.
Aquele Verão passou ligeirinho e o sol corou
as bochechas dos dois amigos. Monstro e menina assistiram juntos ao espectáculo
das marés vivas e, no final de Setembro, a menina teve de se ir embora porque
ia entrar para a escola nesse ano.
O monstro rebolou-se nas dunas uma última
vez, limpou a areia do rosto, penteou os cabelos para trás e regressou, também
ele, a casa. Nada voltaria a ser como dantes, mas era preciso regressar.
Ao fim de algum tempo, a sua voz escolheu um
timbre qualquer e afinou. O seu aspecto foi-se compondo; o corpo calibrando. A
memória, que é especialista em fintas e embustes, conseguiu empurrar as imagens
mais feias para o canteiro do fundo, escondendo-as entre as silvas e as
sardinheiras. Quando o tempo começou a arrefecer, as escamas roxas caíram-lhe
das costas e foram levadas pelo Outono, juntamente com um grande molho de
folhas velhas que se acumulavam junto à berma da rua onde vivia.
Mas… E se, com a chuva do Inverno, voltassem
a nascer?
Maria, entre 1 de Março de 2012 e 13 de Maio
de 2019
Post Scriptum:
Quando escrevi a primeira versão desta história
relatando a transformação de um menino em monstro e do seu regresso, pela mão
da amizade com uma criança, ao mundo das pessoas, fi-lo como exercício puro de
imaginação, canalizada no sentido de humanizar (sobretudo esteticamente, mas
não só) a figura do monstro. Tentei escrever uma história que apresentasse uma
imagem de um monstro mais «verdadeiro», que pudesse funcionar como contraponto
à abusiva exploração comercial do feio, do violento e do gratuito, que vem
acontecendo, sobretudo no mundo dos bonecos animados e dos brinquedos, e de que
as crianças, ao invés de fruidoras, acabam sendo vítimas, na medida em que,
pelo contacto diário com tais personagens medonhas e amorais, se vão, elas
próprias, descodificando e insensibilizando.
Agora, quando voltei a deter-me no conto,
para o retocar antes de o publicar, acabei por completá-lo. Desmontei-o e refi-lo. E assim que acabei, dei-me conta, com algum encantamento, mas também com um nó no estômago, de que,
afinal, este texto é um relato autobiográfico. Aliás, o seu título completo
deveria ser «O meu amigo monstro. Pequeno ensaio autobiográfico um tudo-nada
poético sobre a adolescência e outras metamorfoses igualmente brutais».
Acredito que, ao lê-lo, vos acontecerá o mesmo que a mim.
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