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O Espírito da Festa


Este será o primeiro ano em que assistirei à Festa dos Tabuleiros, em honra do Divino Espírito Santo. Acontece no início do Verão, de 4 em 4 anos, em Tomar, a cidade sede do concelho onde agora vivo e pertenço (ou tento pertencer).


Flores de papel, pães e pãezinhos, caniços e rendas brancas. As moças aqui das freguesias rurais andam afogueadas, a acabar de montar os tabuleiros; na cidade caminham pelas ruas em fato-de-treino, com as suas torres de papoilas, malmequeres e pães à cabeça, ensaiando o equilíbrio, pela fresca. Desde há alguns meses que, quando vamos à casa de banho dos cafés da cidade ou ao bar das associações recreativas, sobre uma mesa encostada a um canto, encontramos invariavelmente folhas de papel crepe, espigas de trigo, alicates, tesouras e arames. E o pão (que é verdadeiro, mas ninguém comerá; só, talvez, o bicho-da-farinha) larga o seu cheirinho quente quando é espetado pelas varas de cana...

Os vizinhos são obrigados a entender-se porque têm uma rua para enfeitar, tapetes de flores a bordar a muitas mãos, em todas as cores possíveis. Ninguém quer fazer má figura.
Todos se envolvem e esforçam, mas, apesar de tudo, vejo poucos sorrisos. A coisa é séria. E, eu, rio-me. Lembro-me constantemente do Agostinho da Silva, o meu filósofo-poeta-criança de eleição, e a forma tão bela e singela, mas também subversiva, como falava do Espírito Santo e deste culto genuinamente português, que é ao mesmo tempo um sonho.

A criança, no tempo do Espírito Santo, que há-de vir, é o Imperador. Por isso, nas Festas que lhe são dedicadas ela é coroada, enquanto símbolo da Inocência comandando o mundo. A Paz e a Liberdade de ser e de voar em qualquer direcção que se queira representada pela pomba branca. Antes de barro, agora de lata, a meias com a cruz de Cristo, encima todos os tabuleiros do desfile que se faz em Tomar. A partilha do Pão feita num banquete ritual oferecido a todos, de igual modo, no dia a seguir ao cortejo dos tabuleiros e que, por aqui, se chama bodo ou pêza. E, depois, a Alegria da celebração, que isto não é uma missa nem uma procissão, é uma Festa, senhores! A pureza do branco das vestimentas que as mulheres e os homens que as amparam trazem serve apenas para realçar a cor das flores e a pujança de uma natureza abundante em elementos e benesses.

A seguir à idade do Pai, marcada pela severidade e pela culpa, veio a idade do Filho em que a regeneração do ser é feita através do amor e do perdão (elementos, aliás, considerados hoje como essenciais em qualquer processo de meditação ou auto-cura). E depois… viria (virá?) a terceira Idade, do Espírito Santo – tempo-lugar da Fraternidade entre todos os povos e entre todos os seres, plenamente respeitados na especificidade da sua natureza e do seu contributo criativo.

«Colunas de uma catedral em movimento tendo o céu como arco em ogiva» é a imagem invocada pelos organizadores do evento junto dos órgãos de comunicação social. Se a inventaram, não estão nada mal; se assim sente a festa quem nela participa, temos que admitir que estamos perante uma manifestação de religiosidade profunda e graciosa.

No site oficial da Festa aparece, escarrapachado, o slogan: «A festa é do povo, pelo povo e para o povo.» É esse o espírito que por aqui se respira. Mas já ouvi dizer que a Câmara vai instalar umas centenas de lugares em troços privilegiados do percurso, à cobrança, para os visitantes assistirem… (Voilá!...)

A afluência costuma ser massiva e a confusão infernal. No domingo 7, dia do Cortejo dos Tabuleiros, já me avisaram, ninguém conseguirá entrar de carro na cidade. Não sei como nem onde instalarei a minha cadeirinha para assistir ao desfile, mas não posso deixar de ir. Quero ver as colchas que os meus vizinhos lá da cidade irão escolher para pendurar à janela e conhecer os bois que, durante as 4 horas que dura o ritual, seguem a multidão florida, puxando carros recheados de comes e bebes...

Maria Morais, post publicado no FB em 26-06-2019


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