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UM PARDAL QUE ME ENTROU PELA BOCA ou SOBRE O MÁGICO MOMENTO DO NASCIMENTO (para a Mariana)

Tenho a certeza que haverias de gostar de estar aqui agora, Mãe.

Anteontem talvez tivesses tido que tomar uma pílula para a tensão e mais um comprimidinho debaixo da língua por causa do coração, mas tinhas gostado na mesma. Até porque, desta vez, a coisa fez-se toda sem necessidade da tua intervenção e só terias de te recostar na maciez de um cadeirão de velhinha e desfrutar do morno (e um tanto picante) prazer de te saberes Bisavó pela primeira vez. O que custa é o primeiro, não é? Depois a água corre. 

Corre como um rio, mais ou menos sinuoso. 

É certo que, de ano para ano, o curso deste rio muda, nem que seja ligeiramente. Calcorreando novas areias, sendo outras as pedras de que se desvia, diversas as raízes que lava e as tocas que encharca, são também novas as ruas e galerias que escava. Mas o calcorrear, desviar, lavar, encharcar e escavar já tu sabes – vais sabendo – que irá voltar a acontecer, com a mesma energia criadora, ano após ano, segundo após segundo (afinal o que é um ano na cronologia contínua de um rio?...). Com a passagem do tempo vais reconhecendo a natureza multiforme deste fluxo de água, apenas por estares exposto à inevitabilidade da sua constante variação, sempre em busca da melhor forma de se adaptar aos acidentes do terreno. Mas ficas sabendo, entretanto, que independentemente do rumo que o rio escolha, aquela água toda, pouca ou muita, há-de juntar-se a outra água, alargar-se numa foz para depois mergulhar no mar, onde doce e salgado se irão misturar de formas tão naturais como misteriosas… 

Já me está a escorregar a perna para a poesia, bem sei, mas hás-de compreender, Mãe, que também eu estou sensível e um tanto emocionada. Afinal de contas, este também foi o primeiro para mim. Tornei-me Tia-avó de um dia para o outro e isso apardala uma pessoa. O peso da responsabilidade; o sentido da nossa própria finitude que cada nascimento, tal como cada morte, evidenciam; o entusiasmo da expectativa cruzado com a impotência e o medo; o alívio e a profunda alegria; a frustração por não poder estar mais perto, enfim… Tu sabes. 

Como também deves saber, o Duarte chegou um pedacinho antes do tempo. E com o meu jeito natural para fixar datas (quem diria que fiz um curso de História…) achava que a aterragem deste Ser no planeta Terra só aconteceria no Outono. Ora, se ainda ando de volta dos tomates na horta e as maçarocas do meu primeiro milho ainda não se formaram por completo, é Verão, não há discussão. O Outono ainda o estou a ver lá longe. De maneira que não me preparei psicologicamente, digamos. Comecei logo mal, portanto. Não liguei as vezes suficientes para a Mariana, que esteve praticamente meio ano fechada em casa, enquanto a barriga lhe crescia, para se proteger do bicho que por aí anda a matar e a assustar tanta gente. A propósito, irias detestar assistir ao que se está a passar aqui na Terra. Irias exasperar-te com esta gaita do confinamento e das mascarilhas que te fariam comichão no nariz e impressão no goto; a tua tensão arterial acabaria por rebentar a escala só com a preocupação que irias acumular dentro de ti, multiplicada pelos teus 10 filhos mais os não-sei-quantos netos (as contas, fá-las tu, uma vez que, dada a tua situação, terás muito melhores condições e tempo do que eu ;-).

Não me leves a mal, Mãe, mas já pensei aqui para comigo que foi uma benesse teres morrido antes desta confusão toda. Não é que esteja pessimista, a sério Mãe. Acho que vivemos tempos estranhos mas muito promissores – estou cheia de ganas pelo futuro – mas, parece-me que o teu coração dilatado de mãe-elefanta não teria aguentado. E, ao invés de ter simplesmente parado, como aconteceu, numa fria e alaranjada tarde de Outono, teria rebentado estilhaçado por medos e angústias, disseminando entre nós a insegurança e o desespero. Assim como foi, foi bom. Morreste simplesmente. 

Mas, este fim-de-semana, eu própria, assim o pudesse, teria ido buscar-te de nave espacial ao sítio por onde tu agora andas e trazia-te para ao pé de nós. Sentava-te na tal cadeira e ficava à espera de ver aparecer na tua boca aquele sorriso, meio maroto meio vaidoso, de contentamento com a vida. Só isso. Não terias de fazer casacos nem mantinhas de malha nem nada, porque as avós do rapaz, e as primas e as tias (as outras, as mais orientadas do que eu) já as tricotaram; nem terias de dar conselhos sábios, porque nós já nos habituámos a não te podermos telefonar a fazer perguntas e estamos, agora, a dar uso ao Grande Manual de Directrizes e Recomendações para a Vida que tu nos deixaste gravado na cabeça. Punha-te sentadinha, Mãe, pronto. A curtir o momento. Só isso. 

Se cá chegasses antes do mágico momento do nascimento, irias consumir-te toda por dentro com a gravidez de risco da Mariana em tempo de pandemia. Se te trouxesse um dia depois, irias ficar triste por não te deixarem entrar na maternidade para visitares a tua neta primogénita e pesares com as mãos o teu primeiro bisneto. Arrasada por os adivinhares sozinhos, envoltos em dores e pânicos, passarinhando pelos corredores duma fria e contaminada maternidade. E quando os teus olhos, que viam já tão pouco, conseguissem focar a imagem da Mariana no ecrã de um dos nossos telemóveis, na sua primeira fotografia com o Duarte nos braços, com aquela máscara enorme e feia escondendo-lhe o rosto de bolacha-maria, toldando-lhe aquele riso envergonhado que tu bem conheces, então aí, ias ficar zangada e, talvez até, com vontade de chorar. Tal como eu. Mas, depois, irias agarrar-te ao brilho dos seus olhos de azeitona oriental sorrindo de alívio na direcção do pai do seu rebento a quem foi dada, finalmente, no dia seguinte ao nascimento e depois de devidamente testado, autorização para conhecer o seu filho e fotografar a sua mulher. (Terão podido abraçar-se?...) 

A Mariana está com um ar cansado, irias tu comentar. Depois, o teu olhar iria descer e fixar-se no colo da tua neta e no mínimo rapaz abrigado entre as, agora enormes, mãos da sua mãe. E aí ir-te-ias deter um bom bocado. A seguir, provavelmente, comentarias a improvável escala da foto. Dirias, em coro connosco: parece um gatinho, é minúsculo, tão perfeitinho, olha, as unhas, parece que ainda não tem as unhas formadas… E terias, claro, discorrido sobre a cor dos olhos, que nestes preliminares retratos aparecem sempre, e ainda, fechados. Tinhas uma preferência descarada pelos olhos claros, e apesar dos genes verdes e azuis da família do homem com quem acasalaste, saíram-te todos com o olhar castanho. Em dez, parido tudo de modo natural, nem um! Já os netos, houve um ou outro com o olho verde. O último que cá chegou, já depois da tua partida, rematou a coisa com uns enormes e pestanudos focos azuis-piscina. Se o tivesses conhecido ias babar-te até ao umbigo... Mas, essa, é outra história. Agora, queria falar contigo sobre a tua primeira neta, que agora é mãe, como tu. 

A Mariana foi uma valente, não foi? Aquela rapariga sempre tão frágil, às vezes até tremelicante - apesar da sua bela e segura estrutura óssea - safou-se bem, sem queixinhas nem distracções nem mariquices, não achas, Mãe? Focadinha, a miúda. Se ainda fosses animada por sentimentos humanos, daqueles assim bem apetitosos e um tanto perigosos, irias esparramar-te toda em orgulho e auto-satisfação. No estado em que agora te encontras, talvez te multipliques e distribuas, apenas, em contentamento luminoso.

A tua neta Mariana foi uma valente e, só por isso, valeu a pena voltar a escrever-te.

Já percebeste que escrever foi a melhor maneira que arranjei para continuar a falar contigo; tu, pelo contrário, andas sempre a dizer-me coisas, às vezes grandes verdades, das formas mais curiosas – tão sábias quanto inesperadas. Mas eu sou apenas uma pessoa. Tu, agora, és outra coisa qualquer, mas ao mesmo tempo a mesma coisa que tudo. Estás maior, acho. Ou, por outra, acredito. E porque nisto acredito, também desconfio que aí pelos jardins de oliveiras, laranjas e couves por onde deambulas já te deverás ter cruzado com o Duarte, algures atrás de uma fonte de água verde. Antes dele germinar no corpo da Mariana, bem entendido. E sobre a Mariana, deves receber relatórios e fotografias por satélite e grandes planos a cores de nano segundo em nano segundo. Tu, agora, fazes parte daquele bocado de nós que tudo conhece, convoca e perdoa. Por isso, não te estou a dar novidade nenhuma. Mas, que melhor pretexto poderíamos ter para a cavaqueira?... Uma Mariana valente, um Duarte mínimo, mas já todo passadinho a ferro, perfeito, lindo, sereno. E uma Primavera que volta a acontecer agora, fora de tempo, às portas do Outono, brotando por todas as fendas e ranhuras que encontra. Não é o Natal que acontece todos os dias, sempre que um homem quiser. É a Primavera que acontece todos os dias, sempre que a Vida quer e nós deixamos. (Consegui impressionar-te com esta, Mãe? Rica imagem, ãhn?...) 

Voltando à nossa conversa, não sei se estás recordada, mas este rapaz tem sangue transmontano a correr-lhe nas veias – por parte do seu pai, é 100% Freixo-de-Espada-à-Cinta e por parte do meu pai também lhe há-de ter chegado um pedaço, daqueles curtos e grossos, que talvez lhe venha a moldar um nariz à Miguel Torga ou lhe faça nascer o jeito para a poesia. Não sei. Não lhe conheço ainda a cor dos olhos, mas adivinho-lhe um forte carácter. Aliás, quanto a mim, ele faz parte duma remessa, que já vem saindo da forja há uns anos, e que vai conseguir dar a volta a isto. Não te ponhas a troçar, Mãe - eu acredito que está em marcha uma verdadeira revolução, sem tiros nem sangue nem flores. Uma revolução a vapor, construída em conjunto mas sem ser em grupo, não sei se me entendes? Eu sei que estas conversas te aborrecem um bocado e vou-me calar já a seguir, Mãe. Mas, queria dizer-te que sinto a mudança a acontecer, em velocidade cruzeiro, numa estranha, silenciosa e natural cooperação entre gente nova e gente velha, abelhas, pássaros e joaninhas, animais selvagens, domésticos e semi-domesticados, ciência e arte, cidade e campo, novo e antigo, razão, alma e coração. Porque, ao contrário de ti, Mãe, sou uma mulher de fé. Não tento ter fé, como tu fazias – sinto-a porque a tenho encontrado por todo o lado. Também poderás dizer, céptica como de costume, que o sol que tenho apanhado na cachola desde Março, enquanto mondo a horta e rego os legumes e as árvores (este ano sedentos de alimento líquido) está, provavelmente, a afectar-me o entendimento das coisas. Mas, ainda bem que está. E, pronto, já me calei. 

… Um dos teus filhos, não sei se te recordas, fez um comentário, não me lembro se no dia do aniversário teu ou do pai, ou se a propósito da data da vossa morte, escreveu ele agradecendo-vos publicamente por nos terem ensinado, com as vossas acções e exemplo, a acreditar na Vida. E é isto que me está a acontecer… Mas, também, já viste como a Vida é generosa? A tua filha mais velha que te pregou um susto de morte uns 3 anos antes de teres partido, com aquela doença que todos tratámos por tumor porque nos custava pronunciar cancro, essa tua filha é agora uma Avó, babada, claro, um pouco estouvada, como sempre, mas ainda assim serena e, não duvides Mãe, tão competente como tu sempre foste. Uma Avó preparada para receber as coisas boas trazidas pela sua única filha, sem desistir das alegrias que a sua vida própria ainda lhe irá revelar por muitos anos. A Fátima está bem, Mãe. Resfolega lá à sua maneira, mas está bem. Não fiques ciumenta, mas ela pôs-se uma Avó bem bonita… 

… Lembras-te da Mariana, pequenita, enfaixada em camisolas de lã como se fosse uma cebola de mil cascas (a minha irmã temia o tempo todo que a filha se constipasse), com o sorriso dentudo das crianças que mamaram na chupeta para lá do tempo aconselhável, os caracóis perfeitos a caírem-lhe sobre os olhos de chinoca, enfiada dentro de uma cesta de palha de ir às compras, toda contente por estar a ser fotografada, contigo ao lado, debaixo da sombra imperfeita da pereira-rocha da casa de Colares? A casca exterior da cebola era de um lanzudo azul-turquesa. A miúda era obcecada por azul. Tinha de ser tudo azul. Embora usasse todas as cores para desenhar quando ia ao Atelier do Avô. Desenhava muito, paisagens e famílias. Passava lá horas, dias, porque a minha irmã também trabalhava com o nosso pai. E a Mariana, até aos 7 ou 8 anos ora estava no Atelier do meu Pai ora na Casa da minha Mãe. Em qualquer dos casos, perto de nós, os tios mais novos, os putos, que ainda vivíamos debaixo da alçada dos nossos pais (não disse que vivíamos debaixo da tua asa porque tu nunca foste uma mãe galinha - já sabes que sou de histórias mas não sou de mentiras…). 

Ainda adolescentes, eu e os meus irmãos mais novos ficámos encantados por sermos tios tão cedo. Tínhamos medo de pegar em ti, medo de te partir e de enervar a nossa irmã mais velha, percebes Mariana, não era por falta de vontade. Apetecia-nos trincar-te o nariz e os dedinhos dos pés e apertar-te entre os braços até sair sumo… Isto quando ainda eras praticamente careca porque, quando te apareceram os caracóis, aí então, foi a loucura total. Fizeste parte da nossa sala e da nossa vida assim que nasceste e durante mais tempo do que os outros todos que vieram depois de ti. Foste, por isso, uma espécie de 11ª irmã – para o bem e para o mal. 

Desculpa, Mãe, por me ter posto, de repente, a falar com a Mariana e te ter deixado de parte. Mas, tal como já te disse, ando um bocado emocionada.

… Recordas-te daquela altura em que andámos com as agulhas desajustadas, eu e a Mariana?... Talvez tu, agora que andas aí pelo espaço sideral com salvo-conduto assinado pelo Todo-Poderoso, possas aceder aos Arquivos do Irracional e tenhas encontrado a ficha onde foi registada a razão de tal desencontro. Não sei bem qual foi, mas sei que durou um tempo estúpido, muito, demasiado. Eu já não aguentava mais e pedi-te ajuda. Conseguimos, juntas, encurralar a Mariana, já mulher feita, dentro da tua casa (e sempre nossa casa, apesar de já lá não morar há uns bons anos) e deste-nos, à tua maneira, um banho de amor. Eu esventrei-me toda e, com pouca conversa e um grande abraço a três, conseguiste reaproximar-nos. Lembras-te do alívio que foi? Do bonito que foi.

… E, quando tu já cá não estavas, Mãe, e a Rosinha começou a germinar dentro da minha barriga (ou seria do meu peito?) como se fosse uma pipoca doce a saltitar, brincalhona, espalhando alegria pelos nossos corações ainda magoados com a tua recente partida, foi à Mariana que eu pedi para ser a futura madrinha da minha filha. Não por lhe ter mais amor do que a qualquer dos outros meus sobrinhos, mas sim por ela ter sido a primeira a chegar e por se mostrar, desde sempre, tão maternal com os seus primos. Quando a Rosinha morreu, ainda antes de ter nascido, a Mariana ficou tão atrapalhada que nem me conseguiu falar. E tão atrapalhada que estava, agora, da alegria que sentia por ir ter o seu primeiro filho, adivinhando a minha tristeza e frustração, porque é claro para todos que ainda não me consegui recompor desta morte, embora acredite que está certo assim, tal qual aconteceu. Imagina tu, Mãe, que nem me queria dar a notícia. Mas eu portei-me bem, Mãe. Esperei um bocado, um mês, talvez, e liguei-lhe a dizer que era uma maravilha isto acontecer no meio desta pandemia que está um pandemónio e que ela era um veículo de esperança para todos (disse isto por outras palavras, claro, Mãe, não precisas ser mata-pulguinhas…) e que ela iria ser capaz de levar a coisa por diante porque é uma mulher valente. Disse-lhe que estava tudo bem e certo. E está, Mariana. Estou muito feliz por ti. A tua Avó confirmará que é verdade. Ando apenas um tanto muito emocionada. 

O teu Duarte, o vosso Duarte, também é um bocadinho nosso e estamos ansiosos por lhe ver nascer na lisa e rosa cabeça os seus primeiros caracóis. Talvez mais escuros do que os teus, dados os genes transmontanos, mas igualmente perfeitos.

 

Com amor da tia Maria que engoliu um pardal

7-9 de Setembro de 2020

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