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O vendedor de colchas


Na semana passada, falei-vos de um Rosa – uma rosa singular. Singular de tão pequena e já tão madura, tão mulher. Falei-vos de coragem. E, engraçado – digo engraçado, porque não acredito muito em coincidências – já antes tinha escolhido o nome Rosa, não para dar nome a uma vida, mas para dar vida a uma mulher de coragem, desta feita, inventada por mim. Mas, como todos nós sabemos, ou ficamos a saber mal acabamos de atravessar os espinhados caminhos da adolescência, a vida arranja sempre maneira de dar um bailinho à mais arrevesada das ficções. E todas as histórias que inventamos, quando não se pespegam, literalmente, à vida, dela decorrem e derivam, naturalmente.

A esta Rosa inventei-a zangada com o lugar onde nós, mulheres, somos colocadas pelos homens, mesmo pelos mais educados e sensíveis – é como uma assombração histórica, que nunca se vai embora, mesmo para mim que nunca senti os rigores do machismo na pele. Sempre fiz tudo o que consegui ou me permiti fazer sem ter a sensação de que fazia ou não fazia por ser mulher. A frustração, ou até revolta, que me impeliu a escrever este conto não teve que ver com fazer ou não fazer, mas mais com desfazer. Eu explico: à mulher acontece muito, a mim tem-me acontecido, independentemente do que faça ou do que recuse fazer, das realizações que obtenha, dos passos que economize, das descobertas que faça, dos trabalhos que cumpra, das pessoas que agregue, das casas e famílias que construa e preserve, à mulher, dizia, acontece muito ser vítima de desfeitas. Com toda a naturalidade e displicência, ingenuidade até, se desfaz no que ela é, no que ela faz, no que ela constrói, grão a grão, pacientemente. É fácil desfazer nas mulheres.

Acontece que eu, numa certa noite do ano de 2013, espantei o sono à conta deste sentimento com que me deitei. E, de olhos arremelgados no escuro, tive de me vingar. Peguei na imagem de uma amiga minha, pequenina e forte, uma mulher do Norte que gosta muito de dançar o vira (ela saberá que estou falando dela), tomei-a como inspiração e, a partir daí, deixei-me levar pela imaginação. As coisas iam aparecendo e eu ia escrevendo dentro da cabeça. Uma noite inteira nisto.

Só quando o sol bateu nas vidraças e a esta Rosa consegui dar um final feliz, é que sosseguei. Adormeci com uma sensação de realização e bem-estar que já nada tinha que ver com vinganças ou raivinhas de estimação. A Rosa da história tinha-me ultrapassado. O amor tinha superado a raiva. Mais uma vez. Felizmente. A criatividade tem destas coisas – reconverte-nos. Criar é bom porque nos faz bem ao corpo e à alma.

Uns dias depois, passei para o papel aquilo que tinha guardado na memória desta noite, em forma de guião, como faço com as histórias que escrevo para contar. Chamei-lhe «O vendedor de colchas» porque acredito que sozinhos não somos nada; homens ou mulheres, precisamos uns dos outros para nos percebermos e transformarmos, para nos libertarmos, para crescermos.

Entretanto, já narrei este conto algumas vezes, embora não tantas como gostaria. E partilhei-o anteontem (outra coincidência, ou não…) com as mulheres da minha comunidade, nas celebrações do dia da mulher, que se fizeram na associação cultural da freguesia onde agora vivo, integrada numa programação simples, mas inédita, pelo menos por estas bandas. Pequenas sementes que se vão lançando à terra e que, acredito, com a graça duma chuvinha, hão-de rebentar em verdes e multiformes plantas. Talvez árvores.

Há dois anos atrás, revi a forma literária deste conto, para poder participar num concurso literário municipal que era sobre igualdade de género. Venci o concurso, embora tivesse ficado um bocado desconsolada com todo o folclore e show off criado em torno das temáticas da moda e de programações politicamente correctas, onde as pessoas e a essência da coisa acabam ficando, mesmo que sem intenção, para segundo ou terceiro plano. Mas isso é outra conversa.

Da versão que levei a concurso, foi um saltinho até ao «O vendedor de colchas» que hoje partilho convosco.

...

Numa terra não muito longe daqui – aliás, se nós nos levantarmos do sítio onde estamos sentados, pusermos os pés ao caminho e apanharmos aquela estrada que vai sempre em frente, sempre a direito, sempre em frente, sempre a direito, sempre em frente, sempre a direito, vamos lá dar, porque esta terra fica longe, mas ao mesmo tempo perto daqui, deste lugar onde ainda estamos – nesta terra vivia uma mulher.

Era franzina e pequenita, a mulher, não teria mais de um metro e meio de altura, com um par de olhos muito grandes e sobrancelhudos e umas orelhas pequenas, de criança ainda, mas com uma pérola de velha pendurada em cada uma delas, como se fosse um par de cerejas.

E quando esta mulher dizia que não, o que apesar de tudo era raro, as cerejas que trazia nas orelhas abanavam de uma forma encantadora – o que parecia ser, para alguns, verdadeiramente insuportável. Ela fazia que não com a cabeça, timidamente, mas as cerejas dançavam, sem vergonha, reluzentes, inchadas, ostensivas. E, depois, era um desassossego.

Esta mulher chamava-se Rosa. Rosa simplesmente, sem apelido. O apelido ficara apenas na cabeça de alho chocho do Senhor Prior que a baptizara, à pressa, entre o casamento da Maria da Purificação, que já ia prenhe aí duns cinco meses, e a extrema-unção do senhor António Perpétuo, que afinal não era.

A Rosa gostava muito de dançar o Vira.
«Eu cá…», ouvia-a dizer um dia, com o seu sotaque cerrado de rapariga do norte, «Sou uma pessoa que gosto muito de dançar o Vira. É uma coisa que… É assim… É uma coisa que me vem cá de dentro… Como se… Quer dizer… Dá-me um formigueiro nos pés que me sobe pelas pernas acima e fica-me a dar voltas nas tripas… E, depois, aquilo continua a subir, a crescer, e aquece-me as orelhas e põe-me o coração todo aos pulos...»

Enquanto nos explicava o fenómeno, sentada à sombra do alpendre da casa da minha avó, fazia muitos gestos, ajeitava o lenço na cabeça, sacudia e repuxava o avental, envergonhada. O Vira entrava-lhe pelos tímpanos e saia-lhe pelas narinas e pela boca, como quem devolve ao mundo, na expiração das rodas e das meias voltas, toda a vida que guarda dentro. Aquela música – a cadência, o vigor, o embalo – remexia-lhe o corpo todo, viajava-lhe pela corrente sanguínea, atravessando órgãos e tecidos até que, num repente, lhe saía pelos tacões das botas, das socas, das chanatas, ou lá do que tivesse calçado, com uma força quase brutal. Mas sempre graciosa. Usando as nossas palavras de raparigas da cidade, que a escutávamos, assombradas, o Vira era, simplesmente, a sua grande paixão.

Quando a Rosa se calou, sorriu, esquiva, e cantou, especialmente para nós, que só lá íamos uma vez por ano, nas férias do Verão, e éramos pouco mais novas do que ela.

Meninas, vamos ao Vira, ai!
Que o Vira não tem idade.
E eu já vi dançar o Vira, ai!
Às meninas da cidade…

A seguir vinha o refrão e nós já a conseguíamos acompanhar, com os braços levantados no ar, a fazer estalidos com os dedos.

Ó vira, que vira e torna a virar,
As voltas do vira são boas de dar.
São boas de dar, são boas de dar,
As voltas do vira são boas de dar!…

Quando nos calámos, a retomar o fôlego, a Rosa continuou a explicar-nos, séria, quase num murmúrio. «De maneiras que a gente vai dançando… Até que um dia, vá lá, pode ser que a vida da gente vire, não é verdade?...»

E era um gosto vê-la bailar, assim, com aquele jeito dela muito arejado e pinchadinho, com as cerejas nas orelhas a dar a dar, saltando e rodopiando com uma alegria e uma genica difíceis de contar… Infelizmente, foram poucas as vezes que eu a pude ver dançar, porque a Rosa não gostava de o fazer em público; o Vira era uma coisa lá dela com ela própria, ninguém tinha nada a ver com isso. E dançava em todo o lado, desde que pudesse ficar a sós com os seus botões, ou, neste caso, com as suas tamanquinhas.

Pela manhã, enquanto limpava as capoeiras e distribuía milhos e farinhas, atrás das redes, escondida por nevoeiros de excrementos e penas flutuantes, afastando galinhas, patos e pintos pedinchões com os pés, improvisava baixinho.

Maninhas, vamos ao Vira, ai!
Que o Vira é coisa pura.
E eu já vi dançar o Vira, ai!
Às filhas do S’or Padre Cura…

Depois, abanicava as pérolas-cereja que tinha por brincos e ria-se, à socapa do mundo.

Ao fim da tarde, no caminho de casa para o lameiro, a meio de uma azinhaga, muito torta e sempre a descer, voltava à carga.

Meninas, vamos ao Vira, ai!
Que o Vira é coisa linda.
E eu já vi dançar o Vira, ai!
À minha irmã Gracelinda…

E largava a dançar, por ali abaixo, sobre o cascalho solto, com uma perícia de artista de circo – nem sei como é que ela fazia aquilo sem se espalhar ao comprido.

Inventava as letras, mas a cantiga, essa, era sempre a mesma. E dançava, como quem tudo entrega, enquanto calava, resignada, as misérias da vida que levava.

O lugar onde a Rosa mais gostava de dançar era na penumbra da adega que ficava sob a casa de pedra onde vivia com o seu marido. E, quando ele a mandava lá ir abaixo buscar azeite ou um jarro de vinho para o almoço, ela aproveitava sempre para dançar. É que lá em baixo, para além dumas quantas pipas e de duas ou três talhas encostadas a uma parede, havia apenas espaço e silêncio. Gostava do escuro e do eco que aquela sala imensa fazia, quando estalava os dedos ou batia com as pontas dos pés no chão de terra batida. Aquilo era como ter um daqueles pavilhões municipais, polidesportivos e multi-usos, inteirinho, só para ela!

Dançava duma parede para a outra, e daquela para esta – dava mesmo à conta para fazer as voltinhas do refrão.

Ó Vira, que vira, e torna a virar!
As voltas do Vira, vão dar que falar.

E foram tantas as voltas e tantas as vezes que a Rosa ali bailou que acabou por abrir um sulco no chão, uma circunferência fendida à roda do seu salão privado, que era a adega.

«Rosa! Ó Rosa!...». Entretanto, o marido chamava-a pela terceira ou quarta vez e ela subia as escadas a correr, enquanto ajeitava os cabelos. Chegava à mesa sempre afogueada, com as bochechas vermelhas, e o homem achava que ela se metia nos copos. «Não tem mal que gostes de beber, Rosa; só não quero que sejas mentirosa como a tua mãe, que era uma desavergonhada e uma bruxa e acabou como acabou…». E, depois, indagava, compreensivo, quase afável: «Responde-me. Andaste a dar na pinga outra vez?». A Rosa dizia que não com a cabeça e as cerejas abanavam-lhe nas orelhas daquela maneira que o punha completamente zonzo – isto, ainda antes do almoço. E depois do almoço, a Rosa já sabia que ia apanhar nas orelhas.

Aliás, a Rosa, tinha passado a vida inteira a apanhar nas orelhas. Era já assim uma espécie de rotina. Tinha apanhado diariamente nas orelhas do senhor seu pai, que já lá estava; dos irmãos que ainda cá estavam quase todos; apanhava nas orelhas do seu primeiro marido, entretanto também falecido, que a tinham casado aos dezasseis com um velho com mais de cinquenta. Apanhava nas orelhas do homem que tinha agora e que era igual ao outro, só que com as mãos e a língua, talvez, um bocado mais pesadas. E, engraçado, já começava a apanhar nas orelhas do enteado mais velho, que era quase da sua idade.

Ao domingo, quando ia à missa, vestidinha de lavado e muito bem penteada, também era costume levar nas orelhas do senhor prior, por conta da desavergonhada da sua mãe, naturalmente, que era uma bruxa e acabou como acabou. E, ao que tudo indica, só se tinha livrado de apanhar nas orelhas do senhor professor porque, por felicidade, nunca tinha posto os pés na escola.

É impressionante como é que uma mulher tão pequena, tão nova, ainda, e com umas orelhas tão miúdas, conseguia dar ao mundo tantas razões para apanhar nas ditas. Não importava, a Rosa dançava. Com a alegria de quem se alimenta dos frutos que semeia e sustenta.

Ó Vira, que vira, e torna a virar!
E um dia este vira vai ter de mudar...

Outra coisa que a Rosa gostava muito de fazer era de escutar o vendedor de colchas.
O homem começou a aparecer lá na aldeia de quinze em quinze dias, numa furgoneta – uma ford transit cor-de-burro-quando-foge – atulhada de «cooooooolchas, atoalhados e tecidos a meeeeeeeetro!». Ia sempre acompanhado de uma mulher muito gorda e molengona, que tanto podia ser sua mãe, como esposa ou irmã.

Estacionava a furgoneta no largo principal da aldeia, pegava no megafone, subia para um caixote da fruta e dava início ao leilão. O homem das colchas encarrilava um chorrilho de palavras, mágicas, muito depressa, como se cantasse ou recitasse poesia, enquanto a mulher gorda, meio de cócoras, meio de joelhos, dobrava e desdobrava as colchas, os atoalhados e os tecidos a metro.

Encostada ao muro da igreja, a Rosa assistia àquilo com muita atenção, assombrada, como se fosse um número antigo de circo. Escutava as palavras, os assobios e os gracejos do homem das colchas com o peito todo aberto, embora nunca comprasse colchas, nem atoalhados nem tecidos a metro.

O vendedor de colchas já conhecia a Rosa, que era assim como uma espectadora fiel, daquelas que bate sempre as palmas no fim e até, às vezes, no meio. Por isso, sempre que rematava uma venda, «…E esta belíssima peça passa a pertencer, por apenas dois contos de reis, àquela senhora vestida de verde, toda janota, que ali está. Muito obrigadas!», rodava a cabeça na direcção da Rosa, piscava-lhe o olho e sorria, com um sorriso muito lindo, que fazia mesmo lembrar um piano – uma tecla branca, uma preta, duas brancas, uma preta, uma branca…

E a amizade entre a Rosa e o homem das colchas assim foi crescendo, silenciosamente, durante mais de não sei quantos anos. Era sempre a mesma coisa: o vendedor de colchas chegava à aldeia, buzinando, «cooooooolchas, atoalhados e tecidos a meeeeeeeetro!», a Rosa ia a correr ter com ele; ele falava, ela escutava, ele piscava-lhe o olho e sorria, ela dizia que não, abanando devagarinho as suas cerejas. Finalmente, ele partia, com a bagageira quase vazia, e ela regressava a casa com o coração cheio.

Depois, voltava tudo ao mesmo. A Rosa vestia o avental e ia ter com os animais, para lhes dar de comer e levá-los a beber. Arranjava as couves, tratava do almoço, trazia o vinho da adega, regava as favas, o feijão ou as batatas, conforme a estação, e esfregava o oleado gasto do chão da sua casa, pelo menos duas vezes por semana, para não ser desmazelada como a mãe dela, que era uma bruxa e acabou como acabou.

E ao domingo lá ia à missa, ao lado do marido, uma passada atrás, muito bem penteada e de olhos postos no chão. Os seus passinhos ligeiros de rapariga, ao subir os degraus da capela, faziam tremelicar as cerejas que nunca tirava das orelhas, num gesto bailarino que destoava do ambiente denso e austero da aldeia, parecendo denunciar as fraquezas dos homens e desafiar todas as mulheres. Sobretudo as casadas. Olhavam para as suas pernas torneadas pelas voltas do Vira e adivinhavam-lhe a alegria de dançar nos olhos sobrancelhudos. A Rosa baixava-os, mas não havia volta a dar. Até as velhas mais devotas e contidas da aldeia se deixavam tocar por aquela força, brutalmente condensada no subtil movimento dos brincos de pérola que a Rosa herdara da sua mãe. Muitas delas, queriam ser como ela. Outras, percebiam que, lá no fundo, eram como ela. E ainda havia as que não podiam ser. E isto gerava uma enorme perturbação, ao domingo de manhã, no adro da igreja.

O marido puxava-a pelo braço, com um esticão, e a Rosa mergulhava na escuridão matinal da capela da aldeia. Sabendo que, na discrição do lar, voltaria a apanhar.

Nos curtos intervalos dos seus afazeres, enquanto esperava pela visita quinzenal do vendedor de colchas, a Rosa continuava a dançar, na penumbra silenciosa da adega, com o seu jeito pinchadinho, solta e alegre, mas cada vez com mais ganas. As ganas eram tantas que ela, às vezes, até se distraía e cantava alto, aquelas letras manhosas inventadas por si. Mas, quando se apercebia do que estava a fazer, tapava a boca com as mãos. Não por ter medo de Deus ou do inferno, mas dos ouvidos de tísica e da língua de víbora da sua vizinha Cândida, que achava que ela era «uma vadia e uma tola como a desavergonhada da mãe dela», que acabou como acabou.

E, conforme o tempo ia passando, o sulco no chão em forma de lua cheia, a greta que os pés da Rosa iam escavando na terra batida da adega, ficava cada vez mais fundo, cada vez mais negro.

Até que num dia de Novembro, era dia de Todos-os-Santos, o homem das colchas chegou à aldeia sozinho. E fazia tudo sozinho – conduzia a furgoneta, falava ao megafone, dobrava e desdobrava as colchas, atoalhados e tecidos a metro, dizia as graçolas e dava os trocos.

Nesse mesmo dia, ainda antes do almoço, a Rosa foi a correr a casa, à cozinha, buscar a lata de sardinhas onde guardava as suas economias e voltou à praça principal da aldeia, onde se deixou estar, sem pressas, junto à colecção de colchas do seu amigo. Escolheu a cor-de-rosa, uma cheia de rosetas e de lacinhos. E o mais engraçado é que os lacinhos daquela colcha eram iguais – tal e qual, sem tirar nem pôr – àqueles que ela nunca tinha usado nos seus tempos de menina.

«Vai com um desconto p’r’os amigos…», disse-lhe o vendedor de colchas, «Que vossemecê é praticamente da família…» E piscou-lhe o olho. Então, a Rosa fez que sim com a cabeça e as cerejas agitaram-se duma forma… dramática. Ela não sabia, mas este singelo movimento haveria de mudar, irremediavelmente, o seu destino, porque, naquela tarde, entre o fofo dos atoalhados e dos tecidos a metro, o vendedor de colchas cantou à Rosa um Vira diferente do que ela conhecia.

Ó minha Rosinha eu hei-de te amar
 De dia ou de noite, de noite ao luar
 De noite ao luar, de noite ao luar
Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.

E aquilo que eles disseram e fizeram durante as voltinhas do refrão, deixo à vossa imaginação…

Na manhã seguinte, uma manhã particularmente fria e nebulosa – era dia de Finados –, a Rosa tinha desaparecido. Misteriosamente. Deixara tudo como estava – o pente e o sabonete ao lado da bacia, o terço em cima da cómoda, as panelas e as hortaliças sobre a bancada da cozinha, os coelhos na coelheira, as galinhas na capoeira, as toalhas de linho branco muito bem dobradinhas dentro das arcas. Em cima da cama o marido encontrou cuidadosamente pousadas camisa, saia, collans, cuecas e soutien. Era como se a sua mulherzinha se tivesse evaporado. Procurou por todo o lado, mas só deu por falta das botas com que ela andava e, claro, dos brincos de pérola que a Rosa herdara da desgraçada da sua mãe.

Ninguém tinha visto nada. Ninguém tinha ouvido nada. Os animais da casa não tinham dado sinal. A vizinha Cândida também não.
«Eh, lá!... Queres ver que me raptaram a mulher?...»

A coisa só haveria de se esclarecer umas semanas mais tarde, quando a vizinha Cândida, que era muito avisada, reparou que desde o dia de Finados – o dia em que a Rosa desaparecera – nunca mais tinha visto um certo gato preto que costumava cirandar, sozinho, nas traseiras das suas casas e a quem a Rosa dava de comer. Toda arrepiada com aquele pensamento, foi a correr contar a descoberta que tinha feito ao seu vizinho, o marido da Rosa. E o marido, que era, entre outras qualidades, muito perspicaz, juntou um mais um e acabou por se lembrar do tempo que a sua mulher se costumava demorar na adega e das figuras em que depois lhe aparecia à frente, toda assanhada e esguedelhada.

«Mau… Aqui há gato! E é dos negros, carago!»

Parados à porta de casa, puseram-se os dois a fazer contas de cabeça e, passado um pedaço, armados de pá e forquilha, o marido da Rosa e a vizinha Cândida ganharam coragem para descer à adega.

«Agarre-se a mim, vizinha Cândida, não vá cair, qu’isto aqui num se vê um boi! É só pó e teias de aranha…», advertiu o marido da Rosa, tentando distrair o medo. «Olha o estado em que aquela mandriona tinha estas escadas?!...». E assim, muito juntinhos, quase abraçados, desceram pé ante pé e embrenharam-se pela escuridão da adega adentro. De repente, a vizinha Cândida soltou um grito. As suas suspeitas acabavam de ser confirmadas!... No chão da cave estava riscada uma enorme circunferência dentro da qual se vislumbravam inúmeras pegadas. Pareciam incompletas, defeituosas, como se tivessem sido feitas só com as pontas dos pés ou… pelos cascos de algum animal… um chibo, por exemplo.

A conclusão daquela expedição não podia ser mais evidente: a Rosa tinha feito um pacto com o gabiru! E, afinal, sempre tinha acabado como a desavergonhada da mãe dela, que era uma bruxa e acabou como acabou.

Pelo sim, pelo não, o marido da Rosa aproveitou a ocasião para encher um garrafão com vinho verde. E enquanto enchia, cismava. Não compreendia como é que, com as pândegas que ali tinham acontecido, mesmo debaixo das suas barbas, desde há já sabe-se lá quanto tempo, aqueles filhos do demo não tinham conseguido esvaziar as pipas todas…

«Vamos mas é embora desta pocilga, carago! Venha, vizinha Cândida, agarre-se a mim…».

Depois de fecharem a adega a sete chaves, a vizinha Cândida e o marido da Rosa benzeram-se e sentaram-se à mesa da cozinha, onde ficaram o resto do dia a beber, de penalty, copinhos de três, a ver se lhes passavam as tremuras.

Entretanto, não muito longe dali, de botas de agricultor nos pés, pérolas nas orelhas e uma colcha cor-de-rosa cheia de rosetas e lacinhos pelas costas, a Rosa fechou a bagageira e subiu para a furgoneta. Deu uma festa no gato preto que dormia enroscado no banco do pendura. O gato espreguiçou-se e a Rosa agarrou o volante, enquanto cantarolava.

Ó Vira que vira
E torna a virar
Que eu nunca posso
É deixar de te amar

Deu à chave, embraiagem, primeira, um cheirinho de acelerador e, com um tremor, a furgoneta do vendedor de colchas arrancou e deslizou tranquilamente estrada fora, sempre em frente sempre a direito.

Ó Vira que vira
E o Vira virou
As voltas do Vira
Sou eu quem lhas dou!

Sou eu quem lhas dou
Sou eu quem lhas dou
As voltas do Vira
Sou eu quem lhas dou.

Maria, 11-03-2019

O «Vendedor de colchas» integra o livro de contos «Agridoces», que está na forja. 


POST SCRIPTUM:
Entretanto, este conto (na versão que levei ao Concurso Odemira Literária, em 2017) foi publicado em Novembro de 2019, juntamente com outros 8, premiados noutras edições do concurso, num livro intitulado "Contos IG. Uma ponte para a igualdade", numa edição conjunta dos Municípios de Odemira e Aljezur.
20-11-2019

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