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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2019

O coelhinho Atão e a Coelhinha Porquê

Era uma vez um coelhinho que se chamava Atão. Tinham-no chamado assim por ele ter sido o primeiro. O primeiro em quê ou a fazer o quê ou porquê, isso, ninguém sabe. Certo dia, no princípio da Primavera, o coelhinho Atão encontrou a coelhinha Porquê, que estava ainda muito viçosa, dir-se-ia que em idade casadoira. Antes que ela seguisse o seu caminho, não se sabe para onde, correndo o risco de não a tornar a ver, o coelhinho Atão encheu-se de coragem e, olhos nos olhos, perguntou à coelhinha Porquê: «Queres casar comigo, coelhinha Porquê?» «Porquê?» – perguntou-lhe de volta a coelhinha Porquê. «Atão…» – respondeu o coelhinho Atão. «Porque eu cheiro bem.» Então, a coelhinha Porquê cheirou o coelhinho Atão, de alto a baixo, até ficar com o focinho no chão. Fez uma pausa, pestanejou e explicou-lhe, muito desembaraçada: «Então, parece-me bem, coelhinho Atão. O teu cheiro, efectivamente, é de macho eficiente; tens o teu complexo hormonal em condições e estou em crer que terem...

O vendedor de colchas

Na semana passada, falei-vos de um Rosa – uma rosa singular. Singular de tão pequena e já tão madura, tão mulher. Falei-vos de coragem. E, engraçado – digo engraçado, porque não acredito muito em coincidências – já antes tinha escolhido o nome Rosa, não para dar nome a uma vida, mas para dar vida a uma mulher de coragem, desta feita, inventada por mim. Mas, como todos nós sabemos, ou ficamos a saber mal acabamos de atravessar os espinhados caminhos da adolescência, a vida arranja sempre maneira de dar um bailinho à mais arrevesada das ficções. E todas as histórias que inventamos, quando não se pespegam, literalmente, à vida, dela decorrem e derivam, naturalmente. A esta Rosa inventei-a zangada com o lugar onde nós, mulheres, somos colocadas pelos homens, mesmo pelos mais educados e sensíveis – é como uma assombração histórica, que nunca se vai embora, mesmo para mim que nunca senti os rigores do machismo na pele. Sempre fiz tudo o que consegui ou me permiti fazer sem ter a sensaç...

Chamámos-lhe Rosa

Escolhi este texto para inaugurar as minhas publicações frescas  de Março, mês da Primavera, por várias razões. Uma delas, bem curiosa, tem a ver com datas. Há uns dias, combinei comigo mesma lançar-me o desafio de publicar um escrito da minha lavra todas as segundas-feiras, aqui, neste espaço público a que chamei a linha arisca, porque ela é mesmo arisca (e curva) como uma enguia.  Hoje, é segunda-feira, mais precisamente, 4 de Março de 2019, e ao texto que vos falo escrevi-o a 4 de Março de 2016. Passaram-se exactamente 3 anos. Tinha de aproveitar a coincidência. Sendo um texto antigo, de 2016, nunca o tinha dado a ler, o que o inscreve, simultaneamente, na categoria de «resgatado» e de «fresco», duas das gavetas (há quem lhes chame ‘tags’ ou ‘etiquetas’) que inventei para organizar o que vou escrevendo e, eventualmente, orientar as leituras de quem aqui apareça. Tendo consciência de que a história que conto traduzirá, para alguns, um episódio triste, para...

Mulheres da Serra

Quando me mudei para a Serra, freguesia rural do concelho de Tomar, bem no umbigo de Portugal, quis escutar. E foram as mulheres quem mostrou mais vontade de falar; de não deixar cair no esquecimento as histórias do lugar, da família, das pessoas que marcaram as suas vidas. São fechadas as pessoas aqui da Serra. E esta serra nem sequer é muito acidentada; não é cerrada nem isolada; não é especialmente pedregosa. Mas tem muitos picos, muito tojo, cardos, silvas… e poucas pessoas. Faz-me lembrar um naperon de renda verde-cinza, áspero e despenteado; incrivelmente rendilhado. Pontos abertos, assim, de propósito, para fazer efeito, encostam-se aos furos feitos pelas traças. E o desenho do crochet, visto de fora, a olho nu, acaba parecendo apenas um emaranhado de fios, buracos e rosetas, impossíveis de domesticar ou harmonizar. Uma confusão. Perplexidade, apenas, sem a alegria que a desarrumação habitualmente espelha ou convoca, por nos recordar aquilo que se fez ontem ou que ainda ...

Martinho chamou o Verão

Era uma vez um rapaz, um rapaz assim como tu (comia, dormia, sonhava, como tu; no Inverno tinha frio; no Verão calor; no escuro tinha medo… assim como tu), só que este rapaz nasceu muito antes de ti. Nasceu na região que hoje dá pelo nome de Hungria, no princípio do século IV depois de Cristo. Jesus Cristo já tinha nascido, mas o Império Romano ainda não tinha caído. Nasceu antes de Portugal se chamar Portugal, da Itália ser a Itália; a Alemanha era a Germânia e França era Gália; só para tu veres há quanto tempo foi, Martinho nasceu antes ainda de existirem dragões a chisparem fogo pelos ares, princesas a pentearem os cabelos à janela e fadas daquela com chapéu em forma de cone a transformarem cavalheiros em sapos… e vice-versa. Pois é, o Martinho nasceu há muito tempo. Num tempo em que aos rapazes não era dado o direito de escolherem a sua profissão. O pai do Martinho era comandante do exército romano e o Martinho foi educado, ou melhor, treinado para seguir a carreira do pai. E...