Era uma vez uma maçã. Larga de ancas e verde, daquelas de qualidade, das reinetas. E, como boa reineta que era, esta maçã tinha um píncaro muito bonito e trabalhado. Estilizado e perfeitamente centrado, fazia lembrar uma coroa, como se, afinal, em vez de maçã, ela fosse uma romã, ou a orgulhosa neta de um rei – «Rei-Neta!» Para além de todas estas qualidades, esta maçã era biológica, alimentando-se desde pequena, quero dizer, desde semente, apenas de nutrientes orgânicos, sem corantes nem conservantes; sequer fertilizantes – bem, só dos naturais: excrementos de animais herbívoros, restos de vegetais, cadáveres de ervas e húmus, daquele bem escuro, aveludado e perfumado. Como se vê, uma dieta de luxo, digna de reis, chanceleres e ministros. Ou das suas respectivas netas. Até que, certa tarde, estava a Reineta repimpada em cima de um tronco – de macieira, creio – quando foi arrebanhada por uma mão enorme, nodosa, repleta de calos e rematada por longas unhas, duras e negras. E...
Textos avulsos. Uns, ligados (ao correr dos dias, à sucessão das memórias, às demandas quotidianas); outros, desirmanados. Não os vendo, não os troco. Estes, são dados. Porque só levamos o que damos e damos o que temos. Recebe-os, se quiseres. Fico feliz se te disserem ou lembrarem alguma coisa, se te divertirem ou encantarem, se te ajudarem a encontrar algo que te faça sentido. Os «frescos» saem à segunda-feira. Os outros, «resgatados», a qualquer dia da semana. São para ti. Maria Morais