Tenho a certeza que haverias de gostar de estar aqui agora, Mãe. Anteontem talvez tivesses tido que tomar uma pílula para a tensão e mais um comprimidinho debaixo da língua por causa do coração, mas tinhas gostado na mesma. Até porque, desta vez, a coisa fez-se toda sem necessidade da tua intervenção e só terias de te recostar na maciez de um cadeirão de velhinha e desfrutar do morno (e um tanto picante) prazer de te saberes Bisavó pela primeira vez. O que custa é o primeiro, não é? Depois a água corre. Corre como um rio, mais ou menos sinuoso. É certo que, de ano para ano, o curso deste rio muda, nem que seja ligeiramente. Calcorreando novas areias, sendo outras as pedras de que se desvia, diversas as raízes que lava e as tocas que encharca, são também novas as ruas e galerias que escava. Mas o calcorrear, desviar, lavar, encharcar e escavar já tu sabes – vais sabendo – que irá voltar a acontecer, com a mesma energia criadora, ano após ano, segundo após segundo (afinal ...
Este será o primeiro ano em que assistirei à Festa dos Tabuleiros, em honra do Divino Espírito Santo. Acontece no início do Verão, de 4 em 4 anos, em Tomar, a cidade sede do concelho onde agora vivo e pertenço (ou tento pertencer). Flores de papel, pães e pãezinhos, caniços e rendas brancas. As moças aqui das freguesias rurais andam afogueadas, a acabar de montar os tabuleiros; na cidade caminham pelas ruas em fato-de-treino, com as suas torres de papoilas, malmequeres e pães à cabeça, ensaiando o equilíbrio, pela fresca. Desde há alguns meses que, quando vamos à casa de banho dos cafés da cidade ou ao bar das associações recreativas, sobre uma mesa encostada a um canto, encontramos invariavelmente folhas de papel crepe, espigas de trigo, alicates, tesouras e arames. E o pão (que é verdadeiro, mas ninguém comerá; só, talvez, o bicho-da-farinha) larga o seu cheirinho quente quando é espetado pelas varas de cana... Os vizinhos são obrigados a entender-se porque têm uma ...