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Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2019

Mãe Elefanta

Mãe: desculpa, mas desta vez não consigo explicar-te. Sei que gostas, sempre gostaste, de tudo muito explicado – uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa –, mas como explicar-te o que nos aconteceu, mãe? Eu tentei, sabes que sim. Na noite em que tu partiste quase não dormi. Estive a escrever sobre ti, dentro da minha cabeça, durante toda a noite. Mas foi impossível, mãe. A história cresceu, cresceu, cresceu. Crescia, não parava de crescer, mãe. Inchava para todos os lados e eu não a consegui obrigar a ficar parada, assim, quieta e fechada dentro de letras que pudessem ser arrumadas sobre uma folha de papel. E depois… aparecias-me tu, constantemente, a cair da figueira abaixo, aquela lá de Colares; a fazeres-me rir, como que a dizeres-me: «Deixa lá isso, Maria.» É claro que vou continuar a escrever as histórias que tu me contaste. Assim como assim, todas as minhas histórias começam em ti. E, isso, dá-me muito material, mãe. E depois, ainda vou ter de as repetir 50 m...

Uma beata vai-se entregar

Muito boa tarde, e icelentíssimo  Senhor Doutor Juiz, venho entregar-me, pelo meu próprio pé e de livre vontade, porque sei que não pequei e estou praticamente, mesmo praticamente, inocente daquilo que me podem vir a acusar, porque as pessoas são más e têm as línguas como já se sabe. Pois venho-lhe eu, em carne, osso e pele, contar-lhe, em primeira mão, aquilo que me aconteceu a mim própria, e que se não tivesse sido comigo, tinha sido com outra pessoa e, por isso mesmo, talvez nem eu sequer acreditasse, mas foi com estes olhos que a terra há-de comer e com estas mãos que o Senhor Doutor Juiz aqui vê, e que a terra também há-de esmoer, se Deus quiser, foram elas que atiraram a primeira pedra, por assim dizer. Pois, eu conto-lhe sem mais cerimónias, Senhor Doutor Juiz. Sabe lá, Senhor Doutor Juiz, o que me havia de acontecer à saída do cemitério, quando lá fui no domingo passado, pôr jarros frescos ao meu Jacinto… Não é que ia eu quase a chegar ao portão, a enxugar os olhos...

Adeus, Pão-de-forma

A wolkswagem «pão-de-forma», já não é fabricada na Europa desde 1979, mas no México, Argentina e Brasil ainda continuou a ser produzida, até que em 31 de Dezembro do ano passado, este modelo foi definitivamente descontinuado, porque no Brasil, o último país a manter a sua produção, as regras de segurança apertaram e esta máquina já não consegue «corresponder» às exigências dos tempos modernos. A este propósito, os brasileiros fizeram um pequeno filme de despedida, razão deste meu post . Lacrimejei ao vê-lo, narrado na primeira pessoa pela própria Pão-de-forma ( Kombi para os brasileiros) – uma velhota tranquila, generosa e cheia de pedalada. Na minha família, sabíamos a idade das coisas e dos electrodomésticos por os relacionarmos com o ano de nascimento de alguém lá de casa. A casa de férias de Colares é da idade da minha irmã Rita, por exemplo. A máquina de lavar a roupa, a enceradora, o aquecedor a gás, todos estes objectos assumiam, entre nós, presenças quase humanas (é clar...

O rapaz do tambor

Era uma vez um rapaz que tocava tambor. Cheirava a cabra e a madeira, aquele tambor, e o rapaz andava sempre com ele agarrado ao corpo, preso com uma corda vermelha, a tiracolo. Certo dia, estava o rapaz em casa a praticar, « Pum-pum-Pum-pum-Pum… », quando foi interrompido por uma grande algazarra que chegava da rua. « Vem! Tens de vir! Nós vamos!»  – gritaram-lhe da estrada. « Onde ?» – perguntou o rapaz do tambor debruçado na janela. « Então tu não sabes?... Vamos ver um menino que acabou de nascer. Dizem que é rei e que é, assim, como nós… » O rapaz do tambor espreitou pela janela e viu passar na rua muita gente – pastores, camponeses, pescadores, mineiros… Riam alto e galhofavam. Todos levavam, nas mãos, em cestas, à cabeça, o que de melhor tinham para oferecer ao novo rei – fruta, queijo, galinhas, sardinhas, mantas, perfumes, licores, pedras de todas as cores. « Ehhhh!... Esperem por mim! » – gritou o rapaz já a descer as escadas, e correu estrada afor...

Despido para matar

Não conheci o meu bisavô António; por isso estou mais à vontade para falar dele. Porque se inventar um bocadinho, é fácil as pessoas perdoarem-me. Filho de um espanhol, era alto, espadaúdo, muito moreno e com o branco dos olhos e o branco dos dentes muito branco. Eu julgava que ele era sapateiro porque me lembrava de ouvir a minha avó dizer, toda orgulhosa, que lá na aldeia onde viveu até aos 10 anos, ela e os irmãos eram os únicos que andavam sempre calçados, porque o pai dela lhes fazia, todos os anos, uns sapatos abotinados – e eu encaixei na minha cabeça que ele era sapateiro, mas a minha mãe, entretanto, esclareceu-me – sim, era sapateiro, quando calhava; o resto do tempo fazia biscates e negociatas, e era disso que vivia. E depois, devia ter bichos, galinhas e coelhos, e couves e figueiras. Toda a gente que vivia no campo tinha bichos e couves e isso não era novidade nenhuma. Mas este meu avô tinha um cavalo, um cavalo que comprou na feira, como tantos outros que levou p...

Pai Papel

Hoje, em dia cinzento de chuvas hesitantes,despedi-me mais uma vez do meu pai. Bem sei que ele já partiu para o outro lado há mais de 2 anos, quase 3, mas isso não quer dizer que as despedidas já estejam todas feitas e enterradas. É coisa para se ir fazendo, ao compasso de profundas expirações... Fui uma última vez, sozinha, ao atelier onde trabalhou durante mais de 50 anos, por sua conta e risco, e que agora acabámos de desmantelar. Embora (finalmente!) vazio, ainda o encontrei lá, na roda dentada verde do elevador, na grua amarela que se vê da varanda das traseiras e no cheiro a papel (como o dele) que nunca irá desaparecer, por mais que se esfregue o chão e que se deitem fora as pastas e os dossiers. Espaço mágico, feito de estiradores e lapiseiras, tubos e tubos de cópias heliográficas em tons sépia e azuis, as peças de «Lego», brilhantes, quase comestíveis, afias em forma de sino, creee-creee-creee, a pedra-pomes no lavatório mínimo, os banquinhos ocre que todos juntos...