Mãe: desculpa, mas desta vez não consigo explicar-te. Sei que gostas, sempre gostaste, de tudo muito explicado – uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa –, mas como explicar-te o que nos aconteceu, mãe? Eu tentei, sabes que sim. Na noite em que tu partiste quase não dormi. Estive a escrever sobre ti, dentro da minha cabeça, durante toda a noite. Mas foi impossível, mãe. A história cresceu, cresceu, cresceu. Crescia, não parava de crescer, mãe. Inchava para todos os lados e eu não a consegui obrigar a ficar parada, assim, quieta e fechada dentro de letras que pudessem ser arrumadas sobre uma folha de papel. E depois… aparecias-me tu, constantemente, a cair da figueira abaixo, aquela lá de Colares; a fazeres-me rir, como que a dizeres-me: «Deixa lá isso, Maria.» É claro que vou continuar a escrever as histórias que tu me contaste. Assim como assim, todas as minhas histórias começam em ti. E, isso, dá-me muito material, mãe. E depois, ainda vou ter de as repetir 50 m...
Textos avulsos. Uns, ligados (ao correr dos dias, à sucessão das memórias, às demandas quotidianas); outros, desirmanados. Não os vendo, não os troco. Estes, são dados. Porque só levamos o que damos e damos o que temos. Recebe-os, se quiseres. Fico feliz se te disserem ou lembrarem alguma coisa, se te divertirem ou encantarem, se te ajudarem a encontrar algo que te faça sentido. Os «frescos» saem à segunda-feira. Os outros, «resgatados», a qualquer dia da semana. São para ti. Maria Morais